quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Introdução à Maçonaria

Começo esta critica com uma pergunta, que o autor põe nas suas palavras finais: Poderá um maçon falar objetiva e desapaixonadamente da Maçonaria? Julgo e ao contrário da conclusão a que este chegou, de que o conseguiu, que dificilmente o conseguirei, mas irei tentar. Este pequeno grande livro com pouco mais do que 150 páginas, que já vai na 7.ª Edição – aliás a ultima edição, a 7.ª, é de Setembro de 2012 – é um verdadeiro best-seller e tudo por causa de um livro que tem apenas um objetivo muito simples, como aliás resume o autor e muito bem numa simples frase: uma simples introdução ao conhecimento da Maçonaria.

Não pretende por isso ser desmistificador de nada, apenas introduzir o tema de uma maneira desapaixonada e simples, é óbvio que o livro tem algumas lacunas e nas edições mais antigas – as duas primeiras – estas eram gritantes, sendo que a partir da 3.ª Edição – que foi editada em 2001 – as mesmas esbatem-se, embora subsistam algumas que vos darei conta no decurso desta critica, mas só nota quem realmente é conhecedor profundo destes assuntos, assim e de forma global esta introdução ao tema complexo Maçonaria é muito bem conseguida.

O autor, António Arnault, past ou seja antigo –Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitanov. GOL – de longe a obediência – ver o que é na pág. 61/62 da 7.ª Edição – maior e exclusivamente Portuguesa é um advogado, autor (com mais de 30 obras publicadas) e político português (oposicionista à ditadura, fundador da ASP e posteriormente do PS, em 1973, deputado constituinte e da Assembleia da Republica, seu Vice-Presidente e Ministro por este partido) a quem é atribuído – e diga-se com toda a justiça – o titulo de pai do Serviço Nacional de Saúde (SNS), pois foi o seu principal impulsionador após a publicação, em 1978, de uma obra publicada em co-autoria com Mário Mendes e Miller Guerra intitulada: Serviço Nacional de Saúde: uma aposta no futuro. Este levou estas ideias à prática enquanto Ministro dos Assuntos Sociais do II Governo Constitucional, sendo uma das grandes conquistas reformistas de centro-esquerda do pós 25 de Abril e que ao contrário do que hoje gostam muito de se apropriar, nada tem de marxista mas muito de social-democrata nórdica e de trabalhista britânica, aliás dois dos sistemas onde se inspirou.

Resumindo a estrutura da obra, esta começa por fazer uma breve introdução aos princípios gerais e valores fundamentais que enformam a Maçonaria, passando para uma síntese histórica introdutória mais geral, na globalidade razoavelmente conseguida, posteriormente aborda também sinteticamente alguns temas mais complicados para um outsider e/ou profano – e já expliquei o significado do que é AQUI – entender, acrescentando alguns apenas a partir da 3.ª Edição, como o Segredo Maçónico. O resumo histórico sobre a Maçonaria em Portugal é o capitulo seguinte e aqui tenho a apontar um reparo, o autor, ignora claramente a Federação Portuguesa da Ordem Maçónica Mista Internacional Le Droit Humain – O Direito Humano inserindo-a, não sei porque diabo e com uma frase que nem a este lembraria, no capitulo da Maçonaria Feminina e com uma indicação claramente descontextualizada, não fosse esta minha Obediência a terceira maior de cariz liberal e adogmática do nosso país, e uma das maiores do mundo em número de membros e com certeza a maior Ordem mista e a mais internacional (estando atualmente em mais de 50 países com 22 Federações), facto que não corrigiu em todas as edições posteriores apesar de e desde 2008 haver um tratado entre esta Federação e o GOL, podendo este erro e caso este o quisesse ter sido corrigido na 6.ª e 7.ª edições. No capitulo seguinte aborda os chamados temas quentes, ou seja, a Carbonária, a Opus Dei e as relações com a Igreja Católica, remata a parte principal, antes das Palavras finais, com dois capítulos muito interessantes que veio corrigindo e aprimorando ao longo destas sete edições intitulados de Héptálogos.

Na chamada área de Documentos, temos documentos históricos, uma lista de Maçons ilustres estrangeiros e portugueses, os Grão-mestres e Grã-mestres das Obediências portuguesas – e mais uma vez ignora primeiro a Jurisdição e posteriormente a Federação Portuguesa do Direito Humano – e uma Bibliografia, mais ou menos completa, na qual por provável desconhecimento, não pôs livros tão interessantes como: A verdadeira história da Maçonaria de Jorge Blaschke e Santiago Río, 2006, Editora Quidnovi; Os Franco-Mações, 2003 de mais de 20 autores – de entre eles Pierre Simon, Jean Verdun, Jean-Robert Ragache e Alexandre de Jugoslávia antigos dignitários de obediências francesas – Editora Pergaminho; Dicionário dos Símbolos de Jean Chevalier e Alain Gbeerbrant, Editorial Teorema. Nos Documentos destaco dois, não só pelo seu interesse como pela sua importância histórica: o primeiro é a Explicação da Maçonaria aos recém-recebidos que é um discurso proferido pelo Orador da Loja Lisboa, Padre D. André de Morais Sarmento – sim era um Padre – em 1790 ou 1791, que é apenas e só o mais antigo texto maçónico português conhecido – e continua com bastante atualidade – e que chegou aos nossos dias por estar integrado num processo da Inquisição; o segundo é o artigo de Fernando Pessoa – que refere textualmente não sou maçon, nem pertenço a qualquer outra Ordem (...) não sou, porém, antimaçon, pois o que sei do assunto me leva a ter uma ideia absolutamente favorável – no Diário de Lisboa, datado de 4 de fevereiro de 1935, em que este defendendo os maçons e a Maçonaria protesta contra o projeto de lei que proíbe as sociedades secretas e que foi aprovado pela Assembleia Nacional do Estado Novo nesse mesmo ano, neste artigo o poeta desmistifica algumas das propaladas mentiras e muitas das mistificações sobre a Maçonaria.

Em conclusão, mesmo com lacunas mas um maçon tem a tarefa, sempre inacabada, de afeiçoar a pedra bruta e de «construir o templo interior», é de todos os melhor livro para quem quer conhecer o que é a Maçonaria e caso esteja interessado em aderir a esta em esclarecer eventuais dúvidas. Como a próxima segunda-feira é a terceira do mês de Fevereiro e eu nesta analiso/critico livros sobre história & romance histórico resolvi escolher-vos um livro muito interessante que é um misto de romance e de história real intitulado O Último Cabalista de Lisboa escrito por um autor descendente de Judeos portugueses e luso-americano, Richard Zimler.

Saudações a todos os leitores e boas leituras,

.'.Sandro Figueiredo Pires.'.

Post-scriptum: Apenas público a crónica hoje e não na 2.ª Feira, como seria de esperar, mas a 7.ª Edição que encomendei no inicio da semana que passou só me chegou semana e meia depois, embora tendo a 6.ª Edição de maio de 2009, seria injusto não verificar se os reparos que faço se mantinham – e infelizmente mantêm-se – na ultima reedição desta obra de 2012.

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