quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações


Meu querido José

Segue, em papel pardo e já um tanto amolgado, desculpe mas escrevi este segmento em condições extremas, pois fui até à Galiza e aproveitei o momento, fim de tarde em Finisterra, para encetar mais uma parte deste que acredito cada vez mais ser o meu Testamento. Viajei por terras para mim muito queridas, que sempre me fazem pertencer a uma herança céltico-gaélica. Já leu ou conhece alguma coisa sobre a Teoria da Continuidade Paleolítica? Fiquei rendido a essa ideia que fervilha em mim, fazendo-me, pois, irmão de galeses e irlandeses e daqueles formidáveis homens da ilha de Man. Se não leu, diga-me, pois tenho comigo uns exemplares (poucas páginas, descanse, não o molesto com leituras que não pode fazer agora, jovem positivamente vestido do avesso).
Efraim voltou a abrir o meu correio electrónico e voltou a encontrar uma missiva daquela que deve ser a única leitora que temos! Co’a brreca, Viana de Sousa, deixa de serrr tão teimoso e escrrreve no computadorrrr! Mas para mim o “computadorrrr” resume-se a isso mesmo: dor. Irei responder, disse-lhe eu, mas com tempo. Mas, como lhe dizia, ou não acabei por dizer ao certo, viajei pela Galiza, li essas teorias para mim desconhecidas, conheci pessoas interessantíssimas, mas apareça hoje à noite, e falaremos de velho viajante para jovem romântico e futurista e filho das maluquices de todos os dias. (Só me faltava isto: PIM!)
Abrrraço do forrrmidável Efrraim
Abraço amigo do muito
Seu

Gonçalo V. de Sousa.


A música ditava os pares que dançavam naquele elegante salão do Copacabana Palace. E eu continuava a ver-te como se o início de todas as coisas fosse aquele momento em que os teus dourados cabelos anelados e o teu vestido azul encantavam o ar, perfumando-o de uma forma não esdrúxula, antes bruxuleante.
Must you dance, every dance, with the same fortunate man? Dizia o senhor Sinatra, enquanto tu sorrias para ele e eu imaginava que aquele sorriso fosse para mim, só para mim, guardião eterno do teu olhar e dos teus lábios de cetim, senhora minha dos beijos sedosos. Tenho agora noção que o tempo é líquido e interior, pois aquela música foi a mais longa de toda a minha vida. Naqueles quatro minutos acredito que se passaram as estações e todas as grandes e esquecidas constelações. A tetralogia do anel, que já tivera ouvido mas não visto seria um segundo, dentro daquele remoinho, daquela agitação que era estar tão perto de ti, que era estar tão longe de ti, madona dos tesouros longínquos e belos e líquidos.
Ver-te era como dizer: água. You have danced with him since the music began. Continuava o senhor Sinatra enquanto meu primo Jobim – ainda não sabendo que era meu primo – dedilhava na sua guitarra segredos que eram melodias doces, suaves e divinas. Antes de continuar, devo dizer que tu existes e não és somente fruto dos meus sonhos e da minha fuga ao fisco da imaginação. Nada disso. Este não será um testamento em que tudo será feito de viagens semi-lúcidas, embaladas por bebidas de outros tempos, mais europeus e, mesmo assim, muito menos belos e cosmopolitas. A música que ouvia ainda hoje continua. Não interessa o facto destas paragens no fio da narrativa, pois ainda que morra subitamente, tudo isto se irá repetir vezes sem conta (enquanto não terminar o texto, isto se algum dia o fizer) e em todas elas irei amar-te sempre e cada vez mais. Serei sempre o turista com pouca coragem para ir ao teu encontro, enquanto a vida vinha de encontro a todos os meus propósitos de viagens a teu lado, pelo Rio e pelo Mundo. Ainda que as palavras apresentem vários braços e várias indicações com diferentes finalidades, a encruzilhada jamais se resolverá. (Mesmo que venha a contar a verdade mais à frente. Interessa sim, toda esta plácida e terna viagem pelo tempo, saboreando novamente aqueles minutos que foram definitivos para a minha vida, meu tesouro de flores por criar.)
Ainda que a Change Partners esteja em cada fibra de cada vogal, em cada poro de todas as consoantes e palavras deste texto, há sempre um fio sereno, suave e sibilino de Wagner que paira como uma bênção silenciosa: Träume

O tempo passa.

 Ainda que esta tarde de Fevereiro, deste dia vinte e um de dois mil e catorze seja de um itálico a sépia, nada será capaz de desgastar a luminosidade do teu sorriso, ainda que de papel. Nada será capaz de corromper os teus cabelos e os teus lábios, ainda que de papel. Nada será capaz de sufocar o meu amor, ainda que de sangue.
Vem, e acalma esta minha ladainha profana de tardes sem nexo ou desejo algum de o ter. Vem, novamente, brevemente, para sempre. Vem, dourada senhora dos pensamentos perfeitos. Vem, ainda que sejamos de papel, meu amor. Vem.     Fim da 4ª parte.


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