sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu querido José

Desculpe-me escrever-lhe a horas um pouco nocturnas, mas outros assuntos se impuseram, de saúde e bem-estar, e como sabe, jovem frenético, romântico e sonhador, quanto a isso nada há a fazer que não seja obedecer, como monge beneditino ou franciscano que se recolhe ao dever teológico e natural.
Segue uma terceira parte tíbia, pálida e breve, por vários motivos. O primeiro, é que quero propositadamente que assim seja a terceira parte, não só por aspectos simbólicos e cabalísticos, pois o número três é tão profundo que assusta; em segundo lugar, escrevi já a horas tardias e suspeito que o meu querido jovem voador das coisas estéticas transcreva ainda hoje estas palavras tão azedas e sombrias; e em terceiro lugar, não poderia continuar com essa escrita tão romanticamente desenvolta, aliás, uma escrita que jamais foi a minha! Que os deuses me livrem de poder continuar a escrever assim!
Pois bem, leia, pense e viva!
Um forte e amigo abraço do

Seu

Gonçalo Viana de Sousa


E a dança que te envolvia nos seus braços diáfanos e de um azulado distante e inimaginável. O teu vestido que me acenava com um enlevo calmo e seguro. O teu par tinha toda a sorte do mundo e parecia sabê-lo, ou talvez não, e sorria para ti e tu sorrias para ele e isso parecia magoar-me de uma dor insensível, tal era a sua intensidade. O Polka Dot azul virando e revirando pelo teu corpo. (Ou era o teu corpo que se movia dentro do vestido?) O teu par vestido de forma sóbria e elegante. Os dois dançando ao som daquela música, imortal e naquele momento tenebrosa, de nome Change Partners, de meu primo Tom Jobim e do senhor Sinatra. Que poderia fazer eu, perante essa esmagadora realidade que me gritava a pleno pulmões que os teus braços, os teus olhos, o teu movimento, todo o teu ser se encontravam aportados num homem que não eu, senhora minha das noites insones? Lembro-me agora que te observava como um doido, enquanto tu não tinhas consciência da minha existência que te sorvia, que te maravilhava, que te idolatrava com olhos sedentos e ingénuos, puros e misteriosos, singelos e sonhadores. Dir-te-ei o que se passou depois, donna de todas as coisas sensíveis e belas? Não sei, não sei se valerá o tempo das palavras que se escrevem em noites de insónia e de tempos em que o tempo parecia não existir. Talvez deva continuar todo este longo e demorado texto num outro registo mais interessante, árido, directo e cortante, como devem ser as palavras que se querem para sempre, ou testamentárias. Por agora, a noite, os teus cabelos, loiros, anelados, maravilhosos. Vem todas as noites. Vem, senhora das coisas impossíveis que jamais são em vão. Vem, com os teus vestidos e as tuas danças de flores e tardes de sol e noites de luar. Mas vem agora, vem neste momento que é o hoje, em que me perco em arcas cheias da poeira do tempo e do silêncio que foi silvando um fosso quase impossível de preenchermos. Vem, o resto não interessa. Fim da 3ª parte.

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