quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu querido José

Como prometido, ainda que odeie solenemente, de fraque, gravata e palavra de honra, a palavra promessa, envio-lhe, a 2ª parte deste meu texto testamentário. Eis, pois, a segunda parte. Não espere comentários da minha parte, já que da sua, jovem frenético, todas as tempestades sonoras da indagação são possíveis. É somente uma das partes deste meu texto, nada mais. Perguntas, lance-as aos leitores, troque ideias com eles. Comigo, em relação a estes textos, nada há a dizer. O testamentário crava-lhes, como pregos santos, as definitivas palavras que desta caneta de feltro prateado saem. Efraim e eu esperamos por si esta noite, para jantar. A senhora (…) ficou encantada com as suas palavras, meu caro amigo. Esperamos, ansiosamente, por si, jovem oitocentista filho das maluqueiras do século!
Um abraço e até mais logo.

G. V de Sousa.




Noites depois, numa praia de Copacabana, ao som destes dois feiticeiros que criavam maravilhas com a voz e com as sensações. Noites depois, com o vento, menino de colo embalando todas as brisas de mar que chegavam ao baile onde tudo aconteceu.
Vislumbrei-te como quem encontra um tesouro precioso, daqueles que temos a certeza de jamais querer perder, porque brilho como o dos teus cabelos, do teu sorriso e do teu olhar não é coisa que se encontre em alguma parte do mundo. O teu cabelo, meu amor impossível e perdido, de um tom claro e loiro. O teu olhar, grave e doce, onde se estendiam as mais altas montanhas, os mais profundos oceanos. Os teus lábios sedosos e suaves embalavam a música que era como um prolongamento do teu sorriso: inenarrável.
Tudo era música e tudo era a tua existência que preenchia todos os espaços vazios, todas as sombras e todos os silêncios opacos e lamacentos. A dor parecia não existir.
Vi-me ali, no Brasil, nesse Verão de 1968, nesse Brasil mítico, distante e azulado. Um brasil de um azul verde que gritava amarelo ao longo dos braços do Cristo cristão e judeu e muçulmano e budista. De todos nós.
Aquela foi a primeira noite após o prelúdio que vivera meses antes, com Papa John, o senhor Sinatra e meu primo Jobim, nos Estados Unidos. (Ainda que pense que noites destas vivem-se somente para dentro). A noite era calma, de uma placidez bucólica, havendo um céu morno de praias estendidas nos teus braços morenos do sol da praia, senhora minha dos dourados pensamentos perfeitos.
Dançavas numa das salas do Copacabana Palace, no teu esplendor de maresia e búzios sagrados. Vi-te e não foi a primeira vez que me apaixonei. Mas foi a primeira vez que soube o que era o Amor. Esse coup de foudre tão parisiense e cosmopolita avassalou-me num outro hemisfério, no outro lado do mundo de uma forma que temo jamais voltar a experienciar. E isso basta! Ver-te era Tudo, luminosa Madona das causas impossíveis. Dançavas com o teu elegante Polka Dot azul escuro e o mar e o céu eram o prolongamento desse vestido mais importante do que qualquer sudário ou oráculo. “Nossa senhora das coisas impossíveis que procuramos em vão”, e lembrei-me de toda essa ladainha do senhor engenheiro naval e também eu embarquei no teu olhar líquido e tranquilo. E também eu me senti dentro de um poema maior que todos nós que estávamos naquela sala, menos tu. Menos tu que eras a linha por onde o poema brotava. 
O Amor, de facto, só pode ter nascido no Brasil, nessa terra mítica, bela e perfumada! Só esse solo encantado seria capaz de enfeitiçar os Românticos que um dia seriam visionários das coisas impossíveis! Mas o possível era poder ver-te como um menino órfão que descobre que sua mãe afinal está viva. (Mas o que eu sentia era muito mais do que poder conhecer a mãe que nunca tive).

Papa John, meses antes, aconselhara-me a visitar o Brasil. O Rio de Janeiro, Boy, já te comprei a passagem. Irás antes do Carnaval, no dia 25 de Fevereiro, e regressarás assim que quiseres. Diverte-te, dinheiro não te faltará! 

Foi assim, que no dia 28 de Fevereiro de 1968, noite de Lua Cheia (mais tarde disseste-me que era Lua Nova, e eu acreditei, porque palavras tuas eram como cristais em forma de eternidade), te vislumbrei numa das salas desse exótico e cosmopolita hotel de porte Atlântico. Vi-te como um romeiro que encontra a sua última peregrinação (e eu era ainda tão novo). Vi-te como quem descobre segredos Definitivos sobre Deus, a Beleza, a Verdade ou o Sentido da Vida. (Segredos que ainda hoje guardo com carinho e com a ternura de uma ficção maliciosa e verdadeira. Somos mais humanos e melhores no papel, meu Tesouro de tardes distantes.
O Carnaval acabara há poucas horas. Passeei por ele como mero turista que avista ao longe todas as coisas, sem nunca me aproximar demasiado.
Ali estavas tu, dançando graciosamente, suavemente, delicadamente. A noite era o teu vestido e a tua dança. A noite eras tu, dourada senhora dos meus pensamentos perfeitos. Fim da 2ª parte.

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