quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações




Meu querido José,

Como prometido, segue, agora sim, a primeira parte deste meu testamentário texto.
Não lhe sei explicar o porquê de lhe chamar assim, mas também não almejo outro adjectivo que não este. Coisas do demo, jovem romântico das regiões longínquas!
O título do que mais à frente segue vem de uma música do senhor Sinatra. "Change Partners", eis o nome de tal música.
(...) Diga à Clara que já li, melhor, o Efraim leu-me o mail que me enviou faz um tempo, pelo que pude saber.
Efraim atacou-me como um persa em terras de Babilónia. Tens de rresponderrrr, Viana de Sousa. Serrr ludita porrrr teimosia é azedo!
Pois que quer que eu faça, caro jovem frenético? Não me dou com as virtualidades, bem o sabe.
Enfim. Que a nossa amiga Clara saiba que a estimo como as noites de luar e estrelas, pois tão fiel leitora só merece o mel das coisas belas, inocentes e puras. (Diga-lhe isto quando falar com ela, não vá pensar que me tornei aristocrata fin de siècle!
Segue, pois, a narrativa musical e ingavetável (desta feita, deixe-se de engavetamentos, jovem romântico das alturas abissais!).
Abrraço terrrno do Efraim.
Abraço apertado deste

Seu

Gonçalo V. de S.


A noite foi um instante que marcou, para sempre, aquele momento que foi e é a minha vida, num tempo já distante e esquecido.
Era uma noite de Outono, fresca, estrelada e igual a tantas outras. Papa John levou-me no seu Studebaker Commander Regal, o rocket, vermelho e veloz, a uma sala de espectáculos enorme, elegante. Boy, dizia ele, esta noite jamais se apagará da tua memória. Depois de veres e ouvires o que se irá passar aqui, a tua vida será diferente. A música, esta nova vaga melodiosa, vai levar-te por caminhos inesperados. Vamos conhecer o que está para ser revelado, boy!
A sala era moderna, airosa, elegante. O som propagava-se como a brisa que se sente nos campos do Mondego em tardes de Maio. O ambiente era primaveril e fresco, belo, nume, perfumado.
Os artistas eram conhecidos do público, mas para Papa John e para mim eram completos estranhos estrangeiros. E nós turistas.
O espectáculo começara. O homem da direita, elegantíssimo, de viola em riste, propunha acordes inacreditáveis, de uma suavidade exótica e azul, que trazia nos lábios sabores de tardes de lusco-fusco apaixonadas, de panamás claros e luminosos, acompanhados de um mar ou de um morro de perder de vista. Logo depois, o homem da esquerda, igualmente elegante, ambos de laço negro e penetrante, sussurra promessas de noites silenciosas e apaixonantes, tendo como únicas testemunhas as luminosas estrelas e o suave embalar das ondas do mar. Foi assim que vi e ouvi pela primeira vez António Carlos Jobim e Frank Sinatra. Foi nessa noite que a minha vida mudou para sempre. O encontro de ambas as vozes e da orquestra que, suave e doce, acompanhava o velejar destes dois bardos, levou-me em viagens de uma dulceza e justiça inacreditáveis. Tudo poderia ser belo, ao som daquela melodia que o senhor Sinatra apresentava como Bossa Nova. O cigarro do senhor Sinatra parecia um prolongamento da sua existência. O fumo exalado e expirado era um bálsamo diáfano e inebriante. Correntes de sensações boas, belas e suaves saíam de cada sílaba, de cada palavra, de cada entoação, tão misteriosa quanto definitiva.
O tema da música foi o pretexto para o começo do resto da minha vida. O resto não interessa. Mas este episódio é tudo. Esta noite foi A Noite. E isso é insubstituível.
O senhor Sinatra muito jovem, mais jovem do que verdadeiramente era. O senhor Jobim, meu primo afastado, vim a saber mais tarde, criava melodias que deslizavam pelas horas lunares adentro. Jamais lutar contra a lua e o seu poder hipnótico.
A noite ia alta, quando a música destes dois senhores que seriam tão importantes na minha vida me invadiu como uma revelação boa, bela e justa. Perante a suavidade daquela melodia quem seria capaz de falar ou escrever ou em pensar em algo que não fosse um local escondido, repleto de sol e de bom gosto, com coisas líquidas como o amor e o carinho e o desejo amoroso?
Que noite aquela! A voz do senhor Sinatra fazendo coro com o dedilhar de meu primo Jobim.
Depois dessa noite, a minha vida começara

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