quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Emílio Miranda - A crónica de Um suicídio (13 a 20)

A Crónica de Um suicídio
 
 
13.
E a cidade acolheu-o em plena adolescência. Com uma mala semivazia na mão e um caderno garatujado de poemas.
Não tinha lembrança de quando começara a escrever.
Nem o que fizera com que a escrita se transformasse rapidamente no centro da sua vida.
 
14.
Por isso quando ela se sentou ao seu lado, na carruagem do comboio naquela noite álgida, não conseguiu esconder a sua vaidade, nem perante a sua curiosidade escusar-se a ler-lhe o poema que entretanto esboçara.
 
15.
Na noite fria
Acendeu-se a alegria
Num perfume
Que passou a correr-me nas veias.
 
16.
Sorriram. E deram então conta de que a carruagem estava afinal vazia, de todos quantos se tinham entretanto apeado.
E mais sorriram quando se aperceberam de que estavam prestes a descer na mesma estação.
O que, mais do que uma coincidência, só podia significar que o universo lhes destinava mais do que aquele simples e primeiro encontro…
 
17.
Deitados sobre a erva macia, ambos fitam o céu de mãos dadas. Estão tão apaixonados que no céu há mais do que nuvens e do que aves: há elefantes, girafas e rinocerontes. O céu é a terra dos seus sonhos.
Estreitado nos dedos que se entrecruzam, depois dos beijos dados e das carícias e da invenção do mundo dos desejos saciados.
Que se renovam.
Como se não houvesse um fim para mais nada.
 
18.
Isabel é um poema constante na sua cabeça. É sobre ela que escreve tudo quanto respira. Tudo se transforma nela e nela tudo é belo.
Até as coisas mais ignóbeis.
Como a fome do mundo.
As guerras que se travam num outro continente.
Os vivos que morrem da incúria e do desleixo. Como se fossem coisas e não gente que sente, que sonha e que ama.
O amor é o melhor do mundo!
O amor é o pão e o vinho que alguém quis que fosse corpo sagrado.
Transformado em religião.
 
19.
Enquanto o avô foi vivo, acompanhava-o com a avó à missa. A igreja da aldeia, pintada de azuis e de dourados era um local mágico, onde as palavras ganhavam vida na sua imaginação…
Havia um homem na terra, de barbas e coração manso, que curava todas as feridas e prometia a vida eterna.
Mas o avô e a avó e a mãe tinham morrido.
Sem nenhuma esperança de ressurreição.
Sem que nenhum terceiro dia os tivesse ressuscitado.
 
20.
Quantas mais mentiras haveria disfarçadas de verdades?
 
*Emílio Miranda



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