domingo, 11 de janeiro de 2015

Zink: LOVE IS IN THE AIR...

1.Ontem foi mais um dia de horror. Infelizmente, ao contrário do que diz a canção, não é «o Amor» mas sim O ÓDIO que está no ar.

Ontem lá houve o proverbial massacre numa loja judaica, o Hyper Cacher - «When in doubt, blame the Jews», não é? - e da Nigéria vêm notícias de centenas de assassinados pelo bando Boko Haram. Ironicamente, a minha amiga Efrat lembrou-me que esta quarta-feira 7 foi o primeiro dia em três anos sem vítimas registadas na Síria. Se... vamos a comparar números, quem ganha é... Mas as pessoas não são números, pois não? Cada pessoa é uma vida preciosa - e muito muito preciosa para alguém seu próximo.

2.Há uma onda de ódio contagiante no ar e, pelo menos para mim, o «espírito Charlie» era contra o ódio. O riso é o oposto do ódio. Amos Oz escreveu que, conseguisse alguém inventar uma injecção de humor, deixaria de haver fanáticos.

3. Os maridos encornados que matam as mulheres num ataque de ira (até recentemente, «compreensível» para muito bom juiz...) veriam o lado cómico da questão - «E agora, como vou usar chapéu?» - e pousariam a arma. Os líderes da FN seriam os primeiros a perceber a graça que tem o seu dirigente histórico lembrar fisicamente o Alberto João. Os que acham que a sua religião é assunto público entenderiam que a relação com o divino é espiritual e que, nos tempos de antão, não havia Kalashnikovs.

4.O que é para mim o «Espírito Charlie»? É usar O RISO COMO AUTO-DEFESA contra os que nos chateiam e maltratam e, com palavras aparentemente virtuosas - Deus, Pátria, Família, etc. -, acham que têm direitos a pisar os calos a um indivíduo. A liberdade como sal da vida. A liberdade como valor moral superior ao respeitinho e ao medo e à reverência às «tradições» (entre aspas porque muitas delas são, ao contrário do que se julga, invenções recentes).

5. Nunca vi ódio - nem sequer à Frente Nacional ou a qualquer religião - nos cartoons e textos do Charlie Hebdo. (sim, também havia textos, e alguns de «análise séria») . Havia, isso sim, um «não me lixes». Eram todos «soixante-huitards», para quem a liberdade de expressão era a primeira frente de combate contra o Mal, venha ele de onde vier. Sim, gente de 68, mesmo os que, como Charb, não tinham vivido esse tempo. No Fiel Inimigo (1994), dirigido pelo Júlio Pinto, havia gente assim. O Viriato Teles, por exemplo, que escreveu um belíssimo livro sobre Zeca Afonso e sempre senti que nasceu com 20 anos de atraso.

6. Et c'est ça.

*Rui Zink: https://www.facebook.com/pages/Rui-Zink/326526430888997

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