sábado, 24 de janeiro de 2015

Sem razão as árvores levantaram voo, aparente.

Das raízes fizeram hélice e pisgaram-se da mesma pasmaceira.
O solo ficou desfeito, desfez-se. Virou-se, quase do avesso, sozinho, pasmou-se. O pessoal, sôfrego, por pouco resistiu àquele tormento. Pais filhos ricos e analfabetos saíram à rua. Os olhos queimaram-lhes a perceção e foi dia de ignorância. Tinham perdido as árvores. Toda a gente tinha perdido as árvores. As Marias começaram a calcular no futuro. A salada de frutas tinha fim anunciado e o último São Martinho tinha sido mesmo o último.
A vida, calma, pôs-se difícil.
Em altura certa, para espanto de vários e esperança chegada, o céu começou a ganhar tons esverdeados. Esse verde foi-se alastrando e alastrando e alastrando e ao fim de um mês era telhado composto de toda a casa. Foi sufoco que gerou muita especulação. Nunca se tinha visto as árvores abalarem e era a primeira vez que o céu mudava de cor. Estudiosos tomaram-no como tese de doutoramento, intelectuais reuniram-se em mesas redondas e discutiram sem conclusão e as velhas a dizerem que era bruxedo, as velhas a dizerem que era bruxedo. Isso é obra do Diabo, menino.
Chegou Novembro e para sair à rua só de capacete. Começou a chover antemanhã. Era uma chuva feia, chuva de bagas malcriadas que cansava a impaciência. Bagas verdes e bagas pretas, bagas roliças do mesmo tamanho. Caíam que nem balas. Atingiam o solo com velocidade estonteante e não mostravam perdão aos que se apresentavam de careca desagasalhada.
Novembro passou-se mas Dezembro trouxe a mesma canção. O pessoal começou, por cima, a andar-lhes. Antes, amedrontados, evitavam-nas. Faziam jogos de slalom e quase conseguiam entrar na mercearia e comprar quilo e meio de batata sem esborrachar nenhuma. Mas agora essas marotas tinham virado inúmeras e já não havia passeio abandonado. E que espanto não foi quando esse susto começou a desfazer-se e a verter um líquido mais ou menos lembrado. Homens e mulheres acorreram com bidons e o Zé da construção ajudou com uma retroescavadora. Azeite, pelo menos, no Natal, não faltou.

Gonçalo Naves


Foto tirada daqui: http://vilaclub.vilamulher.com.br/blog/outros/reflexao-introspectivapassaro-ou-arvore-9-5245767-324170-pfi-fernandatomaz.html

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