quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu querido José,

Escrevo-lhe nesta manhã de véspera de Natal, sabendo de antemão que já se encontra ausente desta que foi a “fantástica Coimbra”, noutros tempos e noutras andanças.
No entanto, escrevo-lhe na mesma, sabendo que escrevo para uma inexistência da sua parte, temporária. Mas há-de voltar, jovem frenético. Há-de ler estas linhas com alguns dias de atraso, o que me dá um certo conforto, pois acredito que as palavras, assim, têm um tempo de silêncio e maturação, como um belo fruto vermelho e maduro que se desfaz nos lábios, ou então como um bom vinho, frutado e suave. (…)
Voltando ao que me levou a escrever-lhe neste dia: o Amor. É verdade, jovem futurista para dentro e modernista do avesso! Nesta triunfal antemanhã do nascimento do paradigma de Deus judaico-cristão e greco-romano venho eu, do alto do meu metro e setenta e nove, e dos meus maus sessenta e oito anos, falar-lhe do amor. Mas sossegue, menino. Falarei do amor que me impressiona, claro está, em Wagner, mais propriamente, naquele momento final, único, belo e transcendente: a morte por amor. Outros amores ficarão para mais tarde, não só na escrita, como na vida.
Se conseguir, encontre pelo mundo virtual e medonho essa parte final dessa indizível ópera, interpretada por Horowitz, num belo e longo piano negro. É imperativo que se escute os minutos finais enquanto se lê esta intragável impressão! Aliás, a música será como o antídoto, bem lenitivo, que anestesiará o compassivo leitor, deixando este predisposto à mediocridade que mais à frente se segue. (E que não se segue, pois envio somente um esboço. Talvez da próxima envie o texto completo. Tenho tido alguns problemas com a datação destas impressões. Efraim insiste para que se escreva tudo no computador, para que não se perca nenhum texto, mas, sabe como sou, pouco ou nada, nada mesmo me interessa ter isto escrito por aí. O que se conseguir ler é o que subsistirá. O resto, meu caro, é esquecimento).
Sabia que o compositor esteve três dias para conseguir obter uma gravação, a seu ver, perfeita? Veja bem o trabalho que as coisas belas dão! Agora imagine quando falamos de amor! Irra!
Bem, são estas curiosidades que tornam o mundo wagneriano numa galáxia constituída por órbitas inimagináveis, onde a poeira cósmica é, nada mais nada menos do que o Absoluto. (Devo admitir que esta última frase saiu-me bastante bem! Não bebo há 5 horas! Imagine se eu vivesse sem o inevitável líquido âmbar!)
Por isso, esta impressão que ora lhe mando, impublicável, breve e discreta, pois é assim que vejo o amor nos nossos dias, irá deambular, turistar ao som das partituras finais, se não mesmo a final!, de Tristão e Isolda.
Ainda irei escrever-lhe, muito, bastante!, sobre Wagner e a sua Transcendência em estado humano, mas não hoje. O Cadernos de Nicosia, além de impublicável, é uma coisa demasiado séria, com Wagner a mais, e com demasiadas chatices para ser lido por meia sala cheia, daí esta impressão seguir incompleta ( de forma propositada).
Desejar-lhe-ia um feliz Nascimento da ficção redentora, se lesse isto ainda hoje, antemanhã desse pagão acontecimento de luz e redenção. Assim, desejo-lhe boa sorte para a impressão que se segue, que me parece muito mais curta que esta missiva, aborrecidíssima, que longa vai há já muitas linhas.
Efraim ainda dorme, mas manda-lhe sempre um abraço semítico. Dentro em breve irei adormecer, com o amanhecer de Coimbra.
Muito seu.

Gonçalo V. de S.

O Amor (Liebestod por Horowitz)

Que seja capaz de amar a Humanidade o coração mais nobre e mais terno. Enquanto isso, que o meu copo nunca seja como a minha vida: um vazio líquido.
Esta manhã, Efraim, tentei, e consegui, sair deste quarto de hotel e desta varanda literariamente cosmopolita. É Agosto (ou Setembro?) deste ano de (mas em que ano estamos?) e sinto o mundo e os passeios desta capital deste país navio aos solavancos, como um grande e inútil soluço metafísico.
Mas afinal, o que é, para mim, o Chipre, senão uma sensação estrangeira do que mais pátrio sinto: o movimento, a mudança?
Somos, ainda que sem o saber, turistas na nossa vida e vagabundos da vida dos outros. Entramos na vida dos outros como um leitor que desvirgina um romance vezes e vezes sem conta, parecendo, até, haver algum prazer masoquista, ainda que plenamente estético, neste turistar como vagabundo. Eis o viajante do século XX! Já nem precisa de sair de casa, ou do seu quarto de hotel, para viajar pelos quatro mil milhões de cantos de um mundo esdrúxulo. Ser flâneur é viajar pelas janelas dos quartos e pelas varandas de todos os hotéis cosmopolitas, ainda que ninguém acredite. Mas tu conheces-me, Efraim. Por mais que o dia pareça ser doloroso, enfrento-o como um Tristão de Pub irlandês, e viajo por aí como um rafeiro elegante, exqui e mal traduzido.
Faço um trottoir matinal, como quem toma um banho vitoriano. Vou ciciando, para dentro, como fariam os pederastas amigos de Mr. Gray., uma cançoneta qualquer, e, não sei como, o amor despenha-se por mim adentro como uma barragem que de inexpugnável só tem o passado que a incontrolável corrente de água fulva e funâmbula apaga. Num instante.
Inexplicavelmente, a água fulva transforma-se nos ruivos cabelos de Isolda, não a falsa, fingida e mentirosa, mas sim na outra Isolda, a bela, pura, cândida, nume, graciosa, perfumada e santa. A santa Isolda de Wagner. Porque em Wagner, o amor é como o perdão para os seguidores de Cristo: o caminho da perfeição.





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