quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Meu querido José,

A missiva que hoje lhe envio serve como caixote do lixo reciclável, por um lado, e, por outro, como lenitivo e protetor estomacal, visto que o leitmotiv (imagino o seu espanto ao ler esta palavra, tão fechada nas bibliotecas e nas salas das vetustas universidades!) é mais votado à música não wagneriana! Uf, que alívio, dirá o jovem José e os leitores, que devem andar de cérebro feito com aquelas pseudo-reflexões sobre o autor de Parsifal e outras Transcendentais Ignomínias da mesma laia.
Sossegue, oh jovem Dada! Recebi as suas provas (…). Não me surpreendem! Não esperaria outra coisa de si que não fosse esse tenro perfeccionismo que o torna tão pertinaz, num sentido luminoso, e amante do Absoluto e Indefinido. Dê tempo ao tempo, as respostas hão-de chegar. Quanto à questão do novo acordo, sabe como o abomino. Abomino-o de escarro sensacionista na ponta da caneta! Mas compreendo o por quê de o aceitar. O seu argumento de a língua se aparentar com um ser vivo que  tem de crescer, de se inovar e de se metamorfosear deixou-me pensativo, mas sabe como sou, ufano e sombriamente pertinaz, o que me leva a não arredar nem pé nem linha que seja a esse novo acordo que tão destramente defende. Repare bem: admiro a sua coragem e só não bebo dela por questão de princípio, feitio e efeito. Não mude! Continue desse jeito: jocoso, e enérgico, positivamente enérgico!
Aguardo a sua visita quanto antes, para falarmos sobre as suas dúvidas wagnerianas!
Aqui vai um texto da colectânea "Histórias de pauta e de papel"!
Efraim agradeceu o presente. “Soberbo, Viana de Sousa”, disse-me ele com aquele seu sotaque exótico, carregando na sua mais que famosa expressão “Magistrralmente soberrrbo”.
Abraços destes dois lhe querem bem.
Muito seu.

Gonçalo V. de S.

Gaetano Donizetti


Donizetti, com o seu Elixir do Amor, testemunhou o enlace de Vitória de Inglaterra com Alberto de Saxe Coburgo  Gota. E a música foi o legado destes dois monarcas! A música e a filharada, que bailou por todas as cortes europeias! Mas não é de amor que iremos falar aqui, nem das belas e verdes florestas germânicas e britânicas, tácitas testemunhas da secreta correspondência trocada por este jovem casal apaixonado. Por um lado, Vitória, jovem rainha e imperatriz a haver de mundo e meio; por outro, Alberto, aprendiz de Schubert e do que melhor a Coburgo germânica tinha para dar ao seu príncipe dourado.
E com isto começa a valsa (que valsa não é, pois esta parte da ópera do imortal Donizetti foi adaptada para o casamento real destes dois monarcas, a 10 de Fevereiro de 1840, quando o Romantismo era uma realidade bela e líquida). Mas acompanhemos o casal de pombinhos nesta valsa de cisnes brancos, de plumagem imponente e universal.
Ela toda vestida de branco, as casas europeias presentes e perfumadas. A um canto do grande salão de dança, Wellington bebericando e falando dos seus tempos áureos e de ferro contra o pobre Napoleão. Nessa altura, Waterloo era ainda uma luz muito grande em toda a Britânia. Ele, Alberto, de traje militar dos Saxe Coburgo Gota, imponente e elegante como mandam as premissas do génio continental. O seu bigode romântico mirando os lácteos e virginais ombros de Vitória. A valsa continua num crescendo harmonioso, filho de um qualquer allegro molto apassionato. Nestes tempos, o Romantismo era o ar que se respirava pelas cortes europeias e senhoras de Bom Gosto. Noutros locais desses mesmos países, era a fumaça das minas e do carvão e da fome que alimentava as mesas fartas e lavadas de uns quantos senhores filhos deste e daqueloutro.
Mas isso pouco interessa. Agora o que interessa são os olhos de Vitória, brilhantes como luzeiros, como lagos bávaros encantados em noites de um luar que nem Byron, Keats ou Chateaubriand conseguiriam descrever, mesmo se quisessem.
 A valsa lá continua, molto apassionata. Numa pequena aldeia irlandesa uma criança ruiva morre de fome, mas isso não interessa. No palácio de Buckingham, recentemente construído, dois príncipes dão início a uma aventura que irá terminar, sem que estes pudessem adivinhar, na maior chacina do século XX. Por agora, não interessa.
Escutemos esta bela valsa, o doce cheiro da verbena e do amor, límpido e precioso num momento. Pútrido e Fatal no seguinte.


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