quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Gonçalo Viana de Sousa - o Flâneur das Sensações


Meu querido José

Envio-lhe um texto antigo, de há mil anos, quando a moda eram certos tipos de bigodes rebeldes e cabeleiras psicadélicas.
Perguntar-me-á se quem escreve sou eu. É claro que não, jovem frenético. A mão é a mesma, mas o escritor é outro. O Gonçalo de então acreditava em ideias esfumaçadas, de neblina metafísica e outras tontices que tal.
Dei, por acaso, com este texto, num dos meus arquivos. Melhor dizendo, foi Efraim que, ontem de tarde, enquanto organizava as pastas se apercebeu de uma folha solta e aparentemente perdida entre a correspondência de Cesariny e uns escritos a propósito dos Floyd! Efraim, risonho, com a folha na mão, luminoso como um Alexandre, diz-me, oh Viana de Sousa, que texto trrrriunfalll! Manda-o para o jovem José, que o vai lerrrrrr como um tesourrrro! Pois bem, aqui vai ele, seguido de uma larrrrrrrgo, liberrrrral e não moscovita garrrrgalhada.
Caso queira engavetar este texto ( o José e a sua mania de engavetar textos e classificar tudo. Já não bastam as gavetas das meias e das gravatas! Deixe o Aristóteles em paz, na sua filosófica e marmórea mudez), atire-o para a secção dos "Escritos Iniciáticos" dos ácidos e toda essa parafernália aos olhos de hoje quase mitológica!
Muito seu.

Gonçalo V. de Sousa.



Consigo ouvir as sinetas e as silhuetas oitocentistas de milhares de corpos suados e usados, martelando emoções de natureza humana. O fraque da elegância revira os olhos perante o pó e a sujidade de um mineiro irlandês exilado em Paris. Os automóveis rugindo, rangendo, roendo o macadame, malucos! Os leões dançando malabarismos de bola de circo vitoriano. Os espadachins de sistemas dançando quadrilhas de fumo com sua excelência, o verme capital.
Caem no fundo sem poço, meu menino. Eles caem num poço sem fundo, sem problemas. Os ciprestes da cor da morte. Malucos aqueles que têm medo da vida mundana, movimentada e cosmopolita da solidão. Bem-aventurados os julgados do coração, sua excelência o verme. Quem sois vós para virdes falar de joelhos à minha muralha inexpugnável? Touristes de sensações e de prestidigitações de tempos passados!
Ah, as Longínquas Sensações Distorcidas saltitando opacamente pelas veias e pelas cartilagens que neste momento parecem ser as minhas. Fosse a vida tão simples como este momento fora e ao lado do tempo e do ciciar diário.
Somos crianças perdidas no tempo, acolhidas pelo lado negro da lua. Mas a lua não tem lado negro. Somos húmidos, profundos e negros. Sorrisos de plástico que escondem abismos inóspitos por dentro. Betão de esmalte esbranquiçado num grito roxo e amarelo. Somos cores e luzes. Somos um castanho líquido esmaecido pela chuva aguda de uma tarde surda. Múltiplas sensações refundidas.
Sensíveis e hipócritas como o solo de uma guitarra descontrolada, impaciente, nervosa, inconsciente, esguedelhada, frenética, suada, eufórica cansada exausta sem respirar sem uma única pausa porque respirar é ceder aos deuses do Olimpo porque respirar é petrificar o tempo. O Tempo.
Meu tio Francisco tocava instrumentos cardíacos de forma platónica. Pederasta e pedante, o Xicó chateava de tão elegante e conhecedor das anfetaminas que, por uma noite, nos tornavam deuses, teólogos e reis. O efeito verde da tempestade transformava-nos em pequenos Cristos que percorriam, descalços, as jerusalens da memória, onde nos chicoteávamos e crucificávamos com a inclemência que nenhuma água poderia jamais lavar. Fizemos de Pôncio Pilatos um baixista descontrolado e de Barrabás um impetuoso baterista. Maria Madalena e João, o predilecto, tocavam guitarra e teclas, não respectivamente, ao som cardíaco das primeiras folhas e das primeiras aragens.
Paisagens crísticas e bíblicas sempre foram o forte da farmácia de meu tio Xicó.
Mas houve um súbito corte no ritmo da banda. As teclas recomeçam com um ímpeto que nenhum César ousaria conquistar, que nenhum Rembrandt teria a audácia de pintar, ainda que por fora, mentindo por dentro.
Vês o homem voador, menino? Vês como ele voa, num céu líquido e navegador?
Longínquas Sensações Distorcidas. Latitudes Superiormente Deformadas.
O que é o paraíso senão o tempo que deitamos fora em cada escarrar metafísico? Personagens de romances que nunca li cumprimentam pessoas de carne. Ritmos que nunca ouvi saltitam por entre uns dedos que parecem os meus. Pulsão sexual reprimida? Desejo nefasto de imortalidade?
O som existindo como uma maldição esdrúxula. Sempre gostei do esdrúxulo da palavra esdrúxula. Sentimentos esdrúxulos são como paixões adúlteras lidas em alcovas de um verde envergonhado, em quartos de pensões Realistas. O som é uma criança brincando com a ampulheta dos deuses, jogo do mundo de cócoras, pó aristotélico das montanhas encarnadas. A Luz muda e surda de água. Luz.
Dou à luz o silêncio e o arco-íris do fingimento, menino. O céu é um parque de diversões colorido, múltiplo, fragmentado, espelhado.
O chão esvai-se, não em sangue, mas em sensações.
A realidade é como um sino dividido por uma voz genialmente robótica.
O que é a realidade? O que é certo? O que é errado?
O que é a mentira e a verdade? Loucos e vagabundos só se diferenciam pelo perfume, não pelos gestos.

Entre o genial e a loucura existe a distância de um comprimido. 

Londres, 15 de Agosto de 1970

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