quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Emílio Miranda - A crónica de Um suicídio (1 a 5)

A Crónica de Um suicídio

 1.

A vida começa todos os dias. Não interessa o que está feito. Todos os dias a ciência de viver recomeça. Exigente.
Esquece o que fizeste. São coisas de nada, que é obrigatório aperfeiçoar. Em novas coisas de nada. Que nada são quando os dias nascem de novo.
(Mesmo que tenhas experimentado o sucesso. Mesmo que tenuemente o tenhas sentido…)
Tudo e nada andam de mãos dadas, como dois gémeos antagónicos. Nada sorri de tudo. Troça do que tudo faz. Tudo é nada e ambos sabem-no.
E um dia tu também o sabes, de uma forma que não te permite a redenção. Nenhum caminho te resta. Nenhuma janela aberta. Nenhum recanto onde esconderes o ridículo em que te tornaste. E então pensas na forma de poderes também tu transformares-te em nada. Um nada consolador, onde tudo se resuma ao silêncio. Ao esquecimento e à paz final.
E primes o gatilho de uma arma esquecida. Ancestral. E nada. Nada acontece.

2.

A luz intensa atinge-te, como uma bala fulminante. Rasga-te o nervo ótico, aloja-se num recanto da memória.
Não te lembras do dia em que nasceste, mas a primeira lembrança é aquela que te identifica com tudo o que passas a ser. Cheira-te a pão fresco, a fumo e a frio. Depois vês-te a comer sofregamente o pão que te queima o céu-da-boca. Sabes que acabou de sair do forno, cozido pela tua mãe, amassado durante longos minutos e levedado por horas. O pão é um alimento exigente. Por isso o comparas à vida.
Quando foi que surgiu essa analogia? Não sabes, mas é assim que há muito o vês.

3.

A dor crava-se na tua fronte esquerda. Palpita torturante. Por cima quente. Por baixo frio. Não sabes onde estás, nem o que és. Ou, porventura, no que te transformaste. Não sabes mais do que sempre soubeste. Que não sabes quem és.
Laivos de recordações atingem-te. Como um comboio em que viajas. Ruge na noite e pressentes, sentes, que lá fora, para lá da janela que silva, chove. Chove torrencialmente. Uma chuva fria. Álgida!
E é então que ela chega. Senta-se a teu lado, na carruagem cheia. E o perfume dela envolve-te como uma nuvem de bem-estar.
Que dura pouco. Tão pouco!
Sobrevém uma dor surda.

4.

A dor assinala uma ferida no joelho. Caiu quando corria. Estava quase escondido quando a queda o revelou. E como se não bastasse ainda havia a dor.
Chorou de vergonha.
Não chores – disse-lhe a Maria. É mais nova do que ele um ano e gosta mais do Joaquim do que dele.
Gosta tanto dela que às vezes lhe dói.
O avô riu-se e disse-lhe que eram ciúmes. E que ciúmes era o que se sentia quando se gostava muito de alguém que não nos queria…
Não sabia ainda que toda a sua vida tenderia a repetir-se…

5.

A primeira vez que viu o mar não imaginava, não podia supor que houvesse uma distância tão vasta feita de água, de reflexos e de espuma. Feita de cheiros, de sonhos e de fantasias.
Mas o avô disse-lhe que tudo quanto pudesse imaginar relativamente à vastidão do mar era muito menos do que a distância que haveria a percorrer.
Caso tivesse a coragem de se aventurar como os antigos marinheiros que haviam ousado ir pelo mundo.
Desconhecido.
Perigoso.
E tão povoado de medos!

*Emílio Miranda

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