domingo, 18 de janeiro de 2015

Como se um peixe um poema



Se não mais, houve pelo menos um, um comunista, nascido em Trás-os-Montes que dois meses depois de, com rigor, completar vinte e três Primaveras, por fazer anos no último dia da estação, chegou a Barcelona com o fito e a vontade de matar fascistas.
Era Agosto, mês de férias, um desgosto.
Só por chegar seria já merecedor de, à sua espera na estação, banda filarmónica dirigida por competente maestro, tias de preferência proprietárias, solteiras e velhas, protegidas do sol a sombrinhas de seda oriental, e a correspondente medalha do mérito, talvez São Jorge por causa dos dragões e de uma inquestionável vocação para bombeiro, culpa de um carrinho de bombeiros, único brinquedo de loja da sua infância, vantagem de ser filho único, quando em regra se tinham irmãos às meias dúzias, quando não às dúzias!
Eram outros tempos. Nasceu em 1914 ou, como gostava de dizer, em 1000-9-e-catorze.
Porém não chegou de comboio.
Chegou a Barcelona numa carrinha de caixa aberta.
Na caixa, galegos, asturianos, navarros, bascos e um transmontano que, porque palavra difícil de pronunciar, isso e o facto de se chamar José e dentro da caixa um total de oito Josés, o transformou imediatamente e apenas no português.
E também não chegou a Barcelona.
Depois de Burgos, Saragoça, Barcelona, e não Burgos, nem Saragoça, nem Barcelona, que a viagem foi-se fazendo por caminhos esconsos e secundários, porque viagem oficiosa ou clandestina.
Chegou treze dias depois, chegou mais de mil quilómetros depois, um milhão de metros depois, e se três passos um metro, mais de 3 milhões os passos, uma lotaria!
E prémio nenhum, nem trabalho para sapateiros porque nem solas novas para os sapatos.
Treze dias de viagem, uma viagem nocturna, a pé e sobre rodas, a oito quilómetros hora ou a cinquenta quilómetros hora, o tempo pode ser eterno.
Chegou aos arredores de Barcelona.
A Garraf.
Depois de Garraf, uma praia, era madrugada, eram gaivotas, era o mar.
Nunca antes tinha visto o mar, era assim, o mar, sem tamanho, o mar!
Procurou os barcos.
O mar sem barcos na sua imaginação inconcebível.
Faltavam-lhe os barcos.
Onde é que o mar guarda os barcos? - Pensou.
Trás-os-Montes, Barcelona, o caminho mais curto, sem oceanos pelo meio e proeza maior do que a do Hemingay, o americano da América, que chegou do outro lado do mundo.
Diziam que chegou como jornalista, como periodista do North American Newspaper Alliance e acabou também aos tiros aos fascistas.
E não que tivesse visto o americano alguma vez de espingarda na mão, apenas cigarros, às vezes charutos, e contavam-lhe que ele contava news from the war, novidades que muitas vezes mais valia não saber, porque deitavam abaixo um gajo. Apesar de a guerra parar à hora da sesta morreram demais, um desgoverno de juventudes perdidas.
Uma vez o americano deu-lhe um cigarro americano.
Respondeu-lhe thank you sir, por saber que queria dizer obrigado, que isto de a ouvir também se aprende.
Guardava todas as palavras novas.
A España no la va a reconocer ni la madre que la parió!
Hi ha aquí algú que parla el portugués?
Pà.
Vermell.
Pots ensenyar-me en el mapa?
Adéu.
Goodbye.
Au revoir.
Bonjour.
Quem também por lá viu, foi o aviador, um francês com tomates, em francês avec de tomates! Um tal de Malraux, que diz que amigo pessoal do General de Gaulle, que em Albacete recrutou e formou a sua quase própria esquadra, a Escuadrilla España.
Um francês que fez história, uma história com fraco fim porque Hitler colocou a Legião Condor à disposição do Generalísimo, cinco mil aviadores.
E assim Guernica, era Abril, era 1937, foi o chamado método do tapete de bombas, foi terrorismo.
Porém chegou depois de Abril, de Guernica só sabe do que ouviu falar e do quadro do pintor de Málaga.
E não sabia dizer de qual dos dois mais gostava, se do jornalista se do aviador.
No fundo sabia, no fundo sabemos sempre, apenas em regra não servimos para afogados ou para mergulhadores.
No fundo preferia o aviador, que isto de andar às voltas no céu, para mais em dias de chuva, para mais chuva de chumbo, não é para meninos, n'est pas pour enfants!
Depois de Garraf deram-lhe um fuzil e foi incorporado não no Ejército Republicano, mais conhecido por Ejército Rojo, mas nas milícias da Brigada Internacional.
Como se para fazer um soldado fosse suficiente uma arma?
Aprendeu que não é necessário muito mais, uma arma, munições, medo ou vontade.
E perdeu a conta aos lugares onde esteve ou os lugares deixaram de ter nome.

Foi o pai, as ideias do pai, que o fizeram comunista, que as ideias são como mãos para fazer coisas.
O pai e a fome, que de estômago vazio os pensamentos mais claros, mais nítidos, sem a indolência de três horas de digestão três vezes ao dia, às vezes refeição nenhuma, se refeição for coisa de faca e garfo e guardanapo, uma mão cheia de castanhas e um copo de aguardente.
O pai, a fome e um galego do outro lado da fronteira, um galego que conheceu nas actividades comerciais oficialmente ilegais que desenvolvia em sociedade com o pai: contrabando: batata para semente, sacos de farinha, latas de tomate, latas de anchovas, de sardinha, de atum, ao atum, como se o peixe um poema, o espanhóis chamam bonito, e por Navidades, latas de melocotón en almíbar e um ou outro brinquedo, como foi o carrinho de bombeiros, que por na aldeia não haver loja de brinquedos tinha de proceder a importação.
A vida é isto, um gajo sujeitar-se a ficar estendido no chão por duas caixas de turrón de almendras de Alicante, três bonecas andaluzas, um frasquinho de perfume francês porque um embeiçado pela moça mais bonita da freguesia vizinha, coisa de fazer cantar passarinhos às quatro da madrugada, dizem para lá do Tejo!
Uma amizade fácil, porque os dois a mesma idade, a mesma fome, quase feudal, e igual a obrigação de manter a boca fechada.
Quase não falavam, para cada produto da encomenda tinham um sinal, uma amizade construída a palavras cortadas, a gestos curtos, a cigarros fumados ao relento e à luz de estrelas, que quanto mais limpo o céu mais estalava a geada debaixo das botas na manhã seguinte.
Quando comunicou a decisão em casa, o pai a dizer que tinha feito um comunista, não um militar, e mais palavras, muitas, como se estivesse num comício, numa homilia, em campanha, e a mãe palavras nenhumas, apenas um olhar triste e seco.
E enquanto ouvia a litania paterna, os pensamentos que o atormentavam: que nunca tinha tido uma arma na mão, teria mãos suficientes, seria fria, pesada, seria valente e capaz de apertar o gatilho sem que lhe tremesse muito o coração?
Assim, foi voluntário, com medo e com vontade.
Fez a guerra, com medo e vontade.
Matou homens e salvou homens.
Não sabe dizer qual dos pratos da báscula o mais pesado.
No fim que São Pedro lhe apresente as contas!
Acha graça e sorri por não acreditar em Deus, apesar de tardes inteiras, noites em vela, os dois em amena cavaca.
Não sabe dizer se antes acreditava (porque se havia coisa boa que tinham os comunistas era não acreditar em tudo o que lhes diziam) ou se deixou de acreditar, porque fazer uma guerra é coisa que arrebata mesmo a fé mais firme.
Da guerra não gosta de falar.
Não fala.
Fez a guerra até que deixou de fazer a guerra.
O voluntário perdeu a vontade.
Vê como é fácil?
Foi para a guerra para vencer ou morrer, o que ninguém lhe disse é que se podia ir à guerra e acabar vivo e derrotado.
É um homem simples, gosta de coisas com lógica, onde estão os bons e onde estão os maus, as diferenças entre os gestos, e não entre os gestos, que na guerra os gestos iguais, as diferenças apenas nos princípios e nos fins.
Não estava preparado para ver o que viu quando chegaram os fascistas. O abandono das chefias, civis a serem mortos à pedrada, amigos a denunciarem-se uns aos outros, casaca virada, na tentativa de granjear o perdão ou a simpatia dos já vencedores.
Pelo que, quando na Rádio Nacional, às 22:30, o actor e locutor Fernando Fernández de Córdoba, informou numa voz de rádio à antiga:
En el día de hoy, cautivo y desarmado el Ejército Rojo, han alcanzado las tropas nacionales sus últimos objetivos militares. La guerra ha terminado.
El Generalísimo
Franco
Burgos 1º Abril 1939.
Quando Franco tomou o poder e a terra voltou a ser plana, quando a Marcha de Oriamendi[1] foi declarada canção nacional, já tinha abandonado o país.
Um pastor guiou-os até Las Illas, no Col de Lli, o primeiro posto francês, eram sete e os últimos sobreviventes da companhia, a um teve que o levar quase de arrasto, lembrava um jumento.
Dois dias depois e em linha recta, Perpinhão, dois dias depois e às voltas, Port-Vendrès.
Pararam em frente a uma igreja, perguntou, responderam C’est la Église Notre-Dame de Bonne Nouvelle, o que sem destino, lhe pareceu uma notícia boa, decidiu ficar, ficaram, ele e mais dois.
O que ainda não sabia é que tinha saído de uma guerra para se enfiar noutra, como se ele um botão e alguém de agulha e linha.
Enquanto os alemães ocuparam a França ele ocupado na Resistência e, apesar de ocupado, como se atingido por uma bala, não conseguiu resistir a um sorriso.
Num tempo difícil para encontrar sorrisos, encontrou um sorriso constante, um sorriso alegre, uma alegria contagiante.
Uma catalã de nome Matilde, que nele se apaixonou pela sisudez e pelas palavras, porque ele a dizia a rapariga do sorriso indestrutível, assim, em português, ela que descobrisse o que ele queria dizer.
Ele já sabia castelhano, ela aprendeu um pouco de português e juntos aprenderam francês e todos os detalhes dos dois corpos.
Um amor definitivo ao primeiro olhar.
Um amor resistente que, como se em estado de respiração assistida, lhe permitiu levar o corpo até ao fim, até 25 Agosto de 1944, o dia em que os Aliados libertaram Paris, e não o dia em que os Aliados libertaram Paris porque o dia em que a mulher lhe disse que ia ser pai!
Dois meses depois de fazer 30 anos soube que ia ser pai, uma frase que como uma cegonha trazia dentro um filho, e pela primeira vez pensou que a vida que levou afinal tinha sentido porque o seu filho, ou filha, se fosse menina chamar-se-ia Ana, como a sua mãe, ia nascer se não num mundo livre pelo menos num país livre.
E chorou, chorou por tudo, saudades da mãe que não mais viu, de Trás-os-Montes, do pai, dos avós, dos amigos de escola, até da besta do mestre-escola que mais do que professor devia pensar que era descendente directo da Padeira de Aljubarrota e a turma um exército de castelhanos.
Saudades de si quando na escola, de si a jogar ao pião, era o maior da sua aldeia com um pião nas mãos.
Saudades do filho que lhe ia nascer.
Saudades do futuro.
Assim, sem outro destino, decidiu pela segunda vez ficar em Port-Vendrès, uma pequena localidade na costa mediterrânica dos Pirenéus Orientais, em rigor e com graça, na Costa Vermelha e, apesar de não saber nadar, inevitavelmente transformou-se em pescador, que pouco mais podia ou sabia fazer. Ou sabia!, que aos poucos foi agregando às actividades piscatórias actividades comerciais que, agora previstas na lei não permitiam sustentar nenhuma acusação de contrabando.
Assim prosperou e teve três filhos.
E o tempo, não mais que de repente, começou a voar, o ambiente finalmente adequado ao cultivo de seres alados, talvez porque os céus despejados de objectos bélicos.
E desde Port-Vendrès, o seu mundo, o resto do mundo não passava de notícias em papel de jornal, coisa útil para embrulhar peixe.
De Portugal, a primeira notícia boa demorou a chegar, chegou em Agosto de 1968, dois meses depois de fazer 54 anos, Salazar caiu da cadeira, literalmente de uma cadeira, uma cadeira de lona onde sentado se preparava para um tratamento de rotina aos calos – que pelo menos os pés não lhe dessem sossego, pensou quando soube.
A cadeira cedeu, ao sentar-se, ao seu peso, e caiu batendo com a cabeça na laje do terraço. – Esta a versão do calista, o senhor Hilário.
Já o senhor Manuel Marques, barbeiro, testemunha que o mesmo caiu directamente no chão desamparado, dada a ausência da cadeira (a cadeira desarrumada, fora do seu lugar, mais uma evidência de que as coisas têm o seu lugar) onde pretendia tomar assento, não para tratar dos calos mas para ler o jornal.
Facto sem contestação é que o Presidente do Conselho, apesar de dorido não quis ser visto por médicos e mais pediu segredo, obviamente de Estado.
Debilitado, um mês depois foi substituído por Marcello Caetano, no entanto, até morrer, em 1970, como se mantivesse o pleno exercício das funções continuou a receber visitas, supostamente de trabalho, e sem manifestar suspeitas quanto à sua situação, a despachar os assuntos da nação, em nada sendo contrariado pelos que o rodeavam, assim que, com ironia, de certa forma respeitaram-lhe a vontade, porque no fim, sempre guardaram um segredo, o segredo que mais lhe conveio.
Cinco anos depois, no mesmo jornal, a morte do Generalísimo conseguiu arrancar-lhe um sorriso, um sorriso cansado, um sorriso de alívio.
Parecia o fim de uma época.
Contudo, havia uma coisa que, como um mosquito, não deixava de o incomodar, o facto de mais uma vez um ditador chegar ao fim dos dias a acreditar que o regime em vigor.
Não que ao de Santa Comba ou ao Galego, desejasse fim semelhante ao de Mussolini, executado com a companheira Clara Petacci, os corpos depois, pendurados pelos pés e expostos à execração pública durante vários dias na Piazza Loretto em Milão.
Apenas teria gosto, todo o gosto em que tivessem percebido o fim do correspondente regime, do pesadelo que conseguiram inventar e instalar.
Porque não é a mesma coisa morrer numa cama aliviado a chás de cidreira e paninhos húmidos sobre a testa ou morrer fuzilado contra uma parede.
Ainda em 1975 Matilde morreu.
O sorriso indestrutível de Matilde desapareceu, sessenta anos apenas, tão nova, tão rapariga.
Foi mesmo o fim de uma época.
Matilde morreu, faltavam cinco dias para o Natal, faltou tudo para o Natal, o seu sorriso, as rabanadas, a estrela no pinheiro, o pinheiro, as luzes, o seu sorriso, os sonhos escuros, lembravam brigadeiros, porque, como ela gostava, polvilhados com excesso de canela, o seu sorriso, a vaca, o burro, os reis magos no presépio, o presépio, o seu sorriso, os villancicos, Matilde a cantar, o seu sorriso.
Pero mira cómo beben los peces en el río
Pero mira cómo beben por ver al Dios nacido
Beben y beben y vuelven a beber
Los peces en el río por ver a Dios nacer.
Aprumava a voz a copinhos de xerez e tirava-o para dançar, no meio da cozinha, da sala, do corredor e ele dançava com o seu sorriso.
O Natal sem Matilde deixou de ser dia de calendário.
Todos os dias do calendário perderam sentido.
A casa vazia, o quarto vazio, o lado esquerdo da cama vazio, sem Matilde e sem o seu sorriso, um nevoeiro dentro de casa, chuva e humidade.
Na casa-de-banho, tanto o frio que chegou a nevar.
E o silêncio a evidenciar o barulho do frio, barulho nenhum, o silêncio absoluto.
Deixou de se ouvir respirar.
Deixou de se ouvir pensar.
O seu coração sincronizado com Matilde.
O seu coração assíncrono.
Um AVC.
As mazelas de um AVC.
O lado esquerdo do corpo atrofiado, como não podia deixar de ser, pois se lhe roubaram o coração.
O pai neste estado não pode viver sozinho.
Trazes a Matilde? – Pergunta, quase que pergunta, não pergunta.
Sabe que a Matilde morreu mas não tem ninguém com quem lhe dê gosto conversar.
O pai tem de tomar uma decisão.
Não se lembra do que decidiu.
A memória torta, com o lado esquerdo do corpo.
Foi viver para um lar.
Uma casa cheia de gente e todos os sorrisos em ruínas ou fáceis de destruir.
Destruiu vários sorrisos.
Comentários ruins e escarninhos que fazia à medida e de propósito para magoar.
Fez inimigos.
E aos poucos, na lentidão dos caracóis ou dos velhos de bengala, agora precisa de bengala, fez amigos.
Amigos da fisioterapia, das caminhadas (também terapêuticas), da petanca, das cartas, dos cigarros fumados às escondidas, dos filmes impróprios para menores e senhoras de bem, das confidências e de outras necessidades do corpo, dez anos depois de Matilde e apesar de os dois velhos tudo parecia novo porque uma curiosidade a estrear.
Se fossem apanhados podiam dizer como as crianças que só estavam a brincar, e não era mentira.
O quotidiano no lar a mostrar um excesso de semelhanças com os dias de caserna, o tempo a mesma textura, as contendas, as derrotas, os triunfos dos pequenos gestos, apertar um botão, dar um laço aos cordões dos sapatos, tomar um banho, as saudades de casa, a indiferença perante a morte e por vezes a tristeza, uma tristeza que parecia capaz de matar.
E mesmo dentro da tristeza a alegria.
A alegria contida das senhoras quando se preparavam para um funeral, o vestido ou o fato, os brincos, as malinhas de mão, os penteados, os lábios discretamente pintados.
Assim as semanas.
Os fins-de-semana diferentes e semelhantes entre si.
Passava os dois dias com os filhos. Os netos crescidos e um tão parecido consigo, o mesmo nariz, a mesma cor nos olhos, os mesmos defeitos, os mesmos sonhos e para mais o mesmo nome, a história a correr o risco de repetição.
Passava semanas de férias com os filhos.
A presença constante dos filhos fazia-o diferente no lar, mostrava que tinha família, que podia talvez ir embora se quisesse, conferia-lhe autoridade e respeito.
Assim os primeiros anos no lar.
Vinte anos que o tempo passa.
Até que um segundo AVC.
O carinho dos companheiros maior.
Limpavam-lhe a saliva que transbordava do lado esquerdo da boca, passeavam-no na cadeira de rodas, liam-lhe as notícias boas dos jornais.
Dois anos depois, depois do andarilho, voltou à suficiência da bengala, à saborosa lentidão dos caracóis.
O tempo a passar quase igual, o lar cada vez mais cheio de pessoas que não conhece, a alegria de um livro, de um cigarro, de um quadradinho de chocolate todos os dias, a tristeza de precisar de ajuda para tomar banho, para apertar os botões da camisa, e nos sapatos não atacadores, uma revolução, fitas de velcro.
E hoje no lar dia de festa porque acontecimento inédito a merecer cobertura de canal televisivo nacional. O lar em alvoroço, as senhoras de vestido colorido, as unhas pintadas na cor do vestido, os senhores de fato e gravata, os sapatos engraxados a rigor.
Porque o dia de sol, a festa no jardim, a relva aparada, uma passadeira vermelha.
Hoje faz 100 anos, ao seu lado os amigos possíveis, os filhos, os netos, dois bisnetos, no bolo, insistiram, 100 velas, hoje, sonhou com Matilde e quando acordou pensou que nunca pensou que viesse a ter fôlego para tanta vida.
 
 
Raquel Serejo Martins






[1] Hino do Carlismo, a Marcha de Oriamendi foi adoptada pelos Nacionalistas durante a Guerra Civil e posteriormente declarada por Francisco Franco Canção Nacional de Espanha

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