segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

A sociedade tem que agir: a violência contra as mulheres

O Clube de Leitores é um espaço de livros e letras. Mas não é imune às discussões que a sociedade deve ter.

A violência doméstica tem e deve ser denunciada. Tem e deve ser debatida. Tem que ser possível fazer alguma coisa.

os números do horror:

Na última década, morreram 398 mulheres vítimas de violência doméstica em Portugal. Ciúme e difilculdade em aceitar a separação foram os principais motivos.
O ano de 2014 ficou marcado pela morte de 42 mulheres. in Público


A propósito deste vídeo e  dos "números do horror" tem decorrido uma discussão no mural da escritora Maria Manuel Viana. Deixo aqui algumas opiniões. 

Cristina M. Barbosa Escrevi há pouco tempo uma reportagem sobre o assunto e deparei-me com o impensável. São dados 'horrorosos'.

Maria Manuel Viana sim, a palavra é horror, Cristina.

Jorge Alexandre Navarro Uma verdadeira barbaridade!

José Mário Silva Não consigo compreender. Não consigo compreender mesmo. A cada notícia destas, sinto uma tristeza imensa. Devia estudar-se isto a fundo, porque há um lado muito trágico na (des)construção emocional e afectiva dos homens, que os conduz a tamanhos abismos de destruição e auto-destruição. Não no sentido de desculpar os actos terríveis e indesculpáveis, mas no sentido de perceber que condicionamentos sociais e psicológicos estão na raiz desta barbárie.

Maria Manuel Viana que me desculpem os que já leram este post, em resposta ao video que o Rodrigo Ferrao me enviou, sobre a educação contra a violência, mas as tuas palavras, José Mário, levam-me a republicá-lo. à tua tristeza junta-se a impotência de muitos de nós, que trabalha/ámos contra a violência doméstica: é uma questão cultural, de educação desde a infância. é preciso desconstruir a ideia de que bater pode significar muito amor, ciúme, desejo de posse, sendo esta sequência um terrível engano. e também contrariar modelos que há em casa (o pai e a mãe, a mãe e os filhos mais velhos), dizendo que são incorrectos e só trazem infelicidade. lembro-me de crianças que não conseguiam dormir de noite, aterrorizadas com os gritos da mãe. lembro-me de explicar que bater nunca é sinónimo de amor. lembro-me de dizer que depois da primeira bofetada virá outra, por mais que o agressor peça desculpa e prometa não reincidir. lembro-me de mulheres assustadas com medo da retaliação, caso o agressor soubesse que elas tinham contado. lembro-me de mulheres a dizerem que não tinham para onde ir, sem trabalho e dependentes financeiramente do homem. lembro-me de uma mulher de 20 anos com sete filhos que nunca fora ao médico e que não sabia que havia métodos anti-concepcionais. lembro-me de essa mulher a fugir pela janela do quarto de banho e a não conseguir passar a tempo a filha mais pequena, que deixou para trás. lembro-me da sua aflição por causa dessa filha, que o marido levou para um bosque e ameaçou matar caso a mulher não voltasse. lembro-me de uma mulher de 70 anos que era espancada há 50. lembro-me de um homem que chegava a casa bêbado todos os dias e batia na mulher e nos três filhos antes de os violar a todos. lembro-me de essa mulher me dizer: se ao menos não nos batesse. lembro-me de o filho mais velho ser epiléptico e ter ataques sempre que ouvia a porta da rua. lembro-me de uma mulher que levantou a saia e me mostrou os cortes feitos a gilette para a impedir de ir para a cama com outro homem que só existia na imaginação do marido. lembro-me de mulheres que choravam e acabavam por voltar, por causa dos filhos e da inexistência de alternativa. lembro-me de mulheres socialmente favorecidas que me diziam que o marido lhes oferecia jóias a troco de elas dizerem que tinham caído a fazer ski ou a andar a cavalo. lembro-me de crianças aflitas a fingirem uma vida normal com a mãe fechada no quarto pelo pai. lembro-me de crianças a adormecerem nas aulas por não terem conseguido dormir durante a noite. lembro-me de crianças e mulheres com medo de falar e de o pai e o marido irem presos. lembro-me de filhos a obrigarem os pais a comer nas selhas dos porcos, depois de lhes ficarem com as pensões de sobrevivência e de os proibirem de falar com os vizinhos ou ir ao médico. lembro-me dos olhos baixos, das mãos enclavinhadas, da vergonha em todos e cada um destes que contavam. lembro-me sobretudo do medo, do pânico, do terror de serem descobertos e da vingança. lembro-me da minha impotência perante muitos destes casos. lembro-me de ouvir em silêncio e procurar soluções, casas-abrigo, misericórdias, um lugar para ficarem com os filhos. lembro-me de ser tudo sempre tão difícil e de eu já não ter palavras. lembro-me do rosto, da voz, da urgência ou da submisão de tantas destas vítimas. lembro-me desses dias, desses meses, desses anos atravessados pelo horror. lembro-me e sei que nunca as esquecerei, a essas mulheres e a essas crianças que faziam quilómetros a pé para virem contar, na esperança de um milagre. lembro-me e lembrar-me-ei sempre, até ao último dia da minha vida.

Anabela Aleixo Nunca e demais voltar a ler e divulgar, pode ser que assim os "valentões " tenham vergonha ou algum arrependimento quando se deparem com com os comentários depreciativos

Rodrigo Ferrao MMV, depois de ter lido este teu comentário, tremi. Porque é real, porque me causa repulsa, porque me sinto impotente ao lê-lo. Nós podemos denunciar isto, nós podemos fazer a nossa parte, nós devemos agir. Pensemos como... é bom que isto se discuta, mas é bom também que isto nos mova.

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