terça-feira, 9 de dezembro de 2014

É do borogodó: Convivo muito bem com os cães da rua


Convivo muito bem com os cães da rua.
Me apraz o velho e o bom modo de vida
que os faz, sem ter do que cuidar na vida,
medir distâncias de uma a outra rua.

Comparto com os cães o ar da rua.
Se um deles me dirige um riso cardo,
como quem dissesse “E aí, Ricardo?”,
respondo-lhe: “Olá, irmão!” E a rua,

que até há pouco erá só mais uma rua
por onde vadiavam um cão e um bardo
(cada um caçando, do seu jeito, a vida),

me obriga a distinguir, nela, o que é a vida
real do que será, quem sabe, um tardo
sinal do quão são irreais o cão e a rua.

- Ricardo Aleixo -

* este poema está inserido na obra Modelos Vivos, livro selecionado pelo Programa Petrobrás Cultural, Crisálida Editora. E escolhido pela Penélope Martins para esta rubrica.

** a fotografia é de Bruno, fotógrafo de Bruxelas, que publica seus cliques em: monnikonetmoi.skynetblogs.be

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