quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Gonçalo Viana de Sousa: o Flâneur das Sensações



Hoje Gonçalo presenteia-nos com escritos da sua juventude. O texto de hoje, com o título liberdade, faz parte do ensaio chamado Prospectos de Julho!


"Liberdade"

Que me dizem os impérios que caem sob o esquecimento de noites que são pó e silêncio? Um lamento, longo e líquido, na hora final das bandeiras hasteadas com o orgulho de séculos que, do nada, voltam ao que sempre foram: pó.
Só a liberdade, só a liberdade será capaz de realizar o homem.
Escrevo com a caneta em riste, o papel quase incrustado na minha pele, como se este acto simples, singelo e silencioso, fosse capaz de calar todas as maldades e injustiças do mundo.
Homens e mulheres aprisionados. Crianças com fome e os velhos pedindo uma esmola como quem grita: humanidade. O homem máquina e besta mata o seu semelhante, em nome de Deus e do Diabo e do Estado e da ordem. O cheiro do napalm, o som líquido da morte, altiva e inevitável.
Quem será capaz de se libertar deste tempo malicioso, deste tempo que se cola às paredes da memória e das gentes?
Só a liberdade, só a liberdade há-de restar como bastião de tudo aquilo que é Belo, de tudo aquilo que vale a pena! Acredito na Liberdade como Deusa, Senhora e Musa. Nossa senhora da Liberdade que nunca deixamos de procurar! Vem e consola-nos, mater dolorosa… Vem lavar-nos o rosto ferido pelo tempo e pelo esquecimento.
A minha caneta não escreve, parece antes martelar no papel como se este fosse a pele de um oprimido ou então um mármore a nascer, eterno, branco e livre.
Não serão estes os tempos que irão definir o futuro. Serão, sim, os nossos ideais! Só a luta contra um regime que nos prende famílias inteiras só porque se pensa livremente e se lêem livros e debatem ideias que são vistas como venenosas, como um atentado à ordem e ao bem públicos.
Escarro de bolso em carteiras recheadas com tardes de lanches e bolos e pastelarias à Cesariny! Os pequenos dos burguesinhos, rechonchudos e tão crianças como os que dormem na rua, comem chocolates e pão e bananas e quando ficam doentes tomam caldos e medicamentos. Os petizes que dormem na rua comem os restos de algum cristão de meia leca que deixa os seus restos de um jantar farto.
Burguesia e Igreja: como ambos os estados se acomodaram bem a este Estado sem jeito nenhum!
Só a liberdade poderá levar-nos a outras colinas que não estes de cinza e pó e opressão. Escrevo isto de noite, às escondidas do mundo, deste mundo que vê este pequeno país nação apodrecer aos poucos. E essa Europa sorri e acena, de longe, vendo-nos, pobres, parolos e pitorescos!
Ai liberdade, liberdade, só tu serás a salvação do sol a nascer! Só tu serás a nossa redentora, Turris-Eburnea daqueles que te desejam com quanta fome têm no bolso e na alma.

A arte será essa: a da liberdade e da revolução.

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