domingo, 23 de novembro de 2014

Aves de Rapina


Acordo, levanto-me, os pulmões, as mãos, o tronco, as pernas, os pés, tantas vezes trocados nos chinelos, o corpo cego pelo quarto, e vou abrir a janela.
No quarto o ar abafado, turvo, pesado, ranço, velho, malsão.
O ar da manhã a entrar no quarto, depressa no Inverno, devagar no Verão.
Levanto-me e fico, deixo-me ficar ou o corpo que não me obedece, depende, quase uma lotaria.
Fico à janela por minutos, horas, há dias em que os minutos parecem horas, a respirar o ar novo da manhã nova.
Fico, como uma personagem de Hopper, de olhos perdidos no vazio dos meus dias, de olhos cegos para lá da miopia e das cataratas, de olhos remelentos e aguados.
O mundo turvo. Sem perímetro definido. Cheio de vincos e rugas, como se velho também.
As árvores manchas verdes, os pássaros invisíveis, feitos de sons somente, ou quando em bando, uma vaga ideia de Primavera, e se aviões, raros, poucos, dependem dos ventos, esses sim lembram pássaros, e as nuvens visíveis dependendo do tamanho, no mínimo, para as perceber, têm de ter o tamanho de vacas, e se uma manada no céu, é bem provável que chova.
Fico, os velhos passam muito tempo à janela, como que hipnotizados pela vida.
Fico, pendente, pendurado, nas pequenas coisas, nas rotinas, nas minudências, às 9:00 o padeiro, às 11:00 o carteiro que às Terças-feiras coincide com a carrinha do peixe, às 14:00 aparece o gato para dar cumprimento à sesta no telhado em frente, mesmo prédio onde às 15:00, se Sexta-feira, entra um sujeito bem apessoado, fato escuro, chapéu em desuso, talvez óculos, imagino-o com óculos porque me lembra o Pessoa, um sujeito que não conheço nem sei ao que vai, o que sei é que naquela casa mora, sozinha e solteira, a moça mais jovem da freguesia, a Deolinda, ainda bonita nas suas 45 primaveras, às 16:00 a vizinha que leva o cão a alívio e passeio, e pouco mais.
Fico, como se a sossegar o corpo.
Preciso descansar dos trabalhos da noite.
A noite não é só sossego.
Um sono ave de rapina, o corpo desassossegado, despojado, roubado.
Corre que é ladrão e à noite todos os sons são pardos.
Ser velho talvez seja isto, passar as noites na companhia de fantasmas, porque ladrão nenhum, a mesma pobreza quando abro os olhos.
E eu sou o mais velho do mundo, um mundo pequeno feito de uma aldeia, uma dúzia de ruas com nomes de Revoluções e de defuntos que terminam na rua do cemitério.
Já ouvi dizer muitas vezes que o mundo é uma aldeia, filhos e netos que aparecem no café vindos de França, das Américas e até das Chinas, tenho as minhas dúvidas, mas não digo nada porque pouco viajei, não precisei de muito chão para viver.
O sono desassossegado (dizem que velho dorme pouco), mesmo se todas as noites, uma rotina, um capricho, antes de apagar a luz, confirmo se estou sozinho no quarto.
Corpo dobrado, joelhos no chão, olhos no pó debaixo da cama, das mesinhas de cabeceira, atrás dos móveis e, se é verdade que nunca encontro ninguém, também é verdade que nunca durmo desacompanhado, e não estou a falar do caruncho nos rodapés, que apesar de não o ver nem o ouvir bem vejo o mau resultado da sua existência.
Assim as noites, em alvoroço, sonhos maus, aves de rapina, nunca andorinhas e o seu trinado, ou rouxinóis, razoáveis tenores e pássaros tão do agrado de poetas ingleses, apenas sonhos sem encanto, quase pesadelos a encher as horas destinadas ao sono, intermináveis apesar de poucas, pois que aprendi com a idade, alguma coisa se aprende, a recolher-me ao quarto, não como uma galinha ao poleiro mas de madrugada, antes da hora baça da alvorada, para de pupilas dilatadas cumprir o resto da noite, até o medo ceder lugar ao cansaço, pois que mesmo o medo precisa de descanso.
E o meu único consolo: Luzia. Luz dos meus dias, ao meu lado na cama, de pés sempre frios. – Não consigo evitar o pensamento.
O desconsolo de um abraço vazio, um abraço sem braços, sem corpo, no escuro, porque Luzia nenhuma. Frios agora os meus pés, problemas de circulação disse o médico, atendendo à idade nada com que me deva preocupar, acrescentou, como se eu me fosse preocupar.
Luzia pálida como um pãozinho bento, deixou-me tão cedo. Luzia apenas dentro de mim ou dentro da gaveta da cómoda cheia de meias, meias de lã tricotadas pelas suas mãos.
Duram tanto as meias. Mesmo com buracos duram tanto.
Outras vezes o meu pai a dar-me as boas noites, a minha mãe a aconchegar-me os cobertores ao corpo, os meus irmãos cheios de dúvidas, talvez porque eu o mais velho, ou porque encandeado por Luzia desde os tempos de escola. Perguntas e confidências sobre medos e amores, que o amor quando não cabe dentro do peito mete medo, parece um monstro que nos quer comer. E não filhos, nem sonhados, porque eu e Luzia filhos nenhuns.
E mais os amigos, tantos, tão bons, tão queridos, tão vivos, tão mortos, tantas flores, tantos funerais.
Não é para me gabar mas nesta vida fiz uns quantos amigos, e o que eu gostava de fazer amigos, agora perdi-lhe o gosto, ou a paciência, é que nem com as pessoas tenho vontade de falar, principalmente com as que me tratam como se eu tivesse cinco anos e não soubesse ler, nem escrever e muito menos contar… se eu contasse tudo o que sei, não contava nada, no fim sabe-se tão pouco… pessoas que me tratam como se eu, o mais velho do mundo, fosse um menino de escola, quando dos meninos da minha escola não ficou um para semente. Ficou a escola, que já não é escola, as portas a cadeado, os vidros sujos ou partidos, o recreio vazio de meninos e cheio de ervas daninhas.
Assim as noites, como festas de São João em noites de Verão, como recreios de escola cheios de meninos sem vida, meninos memórias, meninos sombras, assombrados por aves de rapina.
Assim as noites, vazias de sono e descanso porque cheias de solidão, uma solidão hora de ponta, uma solidão demasiado ruidosa.
Assim, até de manhã, o ar novo da manhã e a alegria de um dia de chuva porque não me obriga a sair de casa, para manter o corpo a funcionar, diz-me convicta de que está a fazer um bom trabalho, leva-me a passeio como um cão pela trela, obriga-me, a rapariga, posso chamar-lhe rapariga, tem idade para ser minha neta, apesar de eu e Luzia filhos nenhuns.
Pois é, já tinha dito, velho repete-se muito.
Repete-se como menino de escola a papaguear a tabuada.
Será que na escola ainda se aprende a tabuada?
Enfim, como dizia, a rapariga que a Segurança Social (o Estado a pôr-me em estado de sítio), afectou ao meu processo, fui processado, identificado, seleccionado e classificado, parece letra de mau fado, como velho (não dizem velho, não me lembro do que dizem) sem família barra sem ninguém (também não dizem ninguém, porém querem dizer ninguém), para manter a casa em ordem, apoio domiciliário, e a ordem dos meus dias.
A rapariga que depois de bater-me à porta do quarto, três pancadinhas todos os dias, um não sei quê de Molière, um princípio de valsa, entra para verificar se respiro, se estou vivo, diz bom dia, diz em que dia da semana estou, repete as previsões meteorológicas que ouviu na rádio de manhã e vai buscar-me à janela, como quem vai ao guiché dos correios levantar uma encomenda,
Hoje disse que é Terça-feira, dia da carrinha do peixe, não consigo evitar pensamento, a terceira Terça-feira de Novembro, Novembro quase no fim, os meus pensamentos inúteis, ou não, pois o que sobra dos meus joelhos, sim sobra, o corpo encolhe, não tem especial apreço pelo novo Inverno que se aproxima, antes pelo contrário, gastam o tempo a protestar, felizmente ou apenas porque estou cada vez mais surdo, não lhes dou ouvidos.
 
Raquel Serejo Martins



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