terça-feira, 25 de novembro de 2014

A Língua Morta de - João César Monteiro

NOCTURNO

hora de cães urinando
na dignidade dos candeeiros
hora suspensa...
de revólveres indecisos
hora vegetal de
poetas bêbedos
hora em que comigo
se cruzam os olhos bons
do Gomes Ferreira e eu
farejos com cio
a mulher nua que ele
leva nos braços
porque eu tive sempre
a certeza que ele levava
uma mulher nua nos braços
nesta hora terrível
de luas amarelas
nesta hora proposta
pela angústia dos relógios
nesta mesma hora aniquiladora
de consciencias burguesas
não pensem que me vou
lançar no Tejo
ou uivar até à lua
na estátua
do Marquês
ou apodrecer eternamente
nos bancos da Avenida
ouvindo o apito dos comboios
que partem para Paris
não
depois de passear pela cidade
a minha jovem experiência
digo jovem para não complicar
vou quando nascer o dia
a casa da Natália
preparar-lhe o pequeno almoço
Romeu pondo torrões de açúcar
no café de Julieta
ressuscitar o mito dos seus làbios
dançar a rumba vestido
de profeta bíblico
e ouvir a cantata da Paz
de Sergei Prokofieff
pedir-lhe-ei então
para me fazer um poema
ATENÇÃO NÃO SE MEXA
em que eu esteja
num tapete persa
com os braços erguidos
ordenando ao sol
que vá pelos subterrâneos
e pelos caixotes de lixo
inundar de luz e de amor
o homem escravizado
dizer-lhe que as horas
passadas e presentes
partiram dum mal entendido
que o futuro destruirá
ordenando ao sol
que golpeie os bárbaros
de raios e labaredas
para poupar aos homens
a experiência do ódio

- João César Monteiro
in Corpo Submerso, edição de autor
 

Sem comentários:

Publicar um comentário