sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Caro José,
Escrevo-lhe a estas horas tardias, mornas e líricas, por saber que lerá estas palavras ainda hoje. O estafeta sabe a luz que vem do seu quarto. Noites de estudo, certo? Estude muito, o máximo que possa, com certeza que voará sem medo, lá nas alturas celestes das belezas inexplicáveis. É tarde, e gostaria que publicasse isto aquando do sono de muitos, para que este texto passe breve, ligeiro e anónimo, pois é assim que tudo deve ser visto. Tudo, claro está, aquilo que está nas impressões e na pessoa que as escreve.
Dê-me novidades suas! Que é feito dos seus (…) para quando o fim dos textos em que escreve a tarde em que nos conhecemos? Envie-me para a próxima semana algo para ler. Cheguei esta manhã de Veneza e ainda não dormi nada. Sinto-me num sonho, meu querido amigo. Volto à pacatez de Coimbra, da nossa Coimbra, e sinto-me como um perdido, incerto não nas escolhas que devo fazer, antes nas certezas já aceites por todos. Fumo um charuto como há muitos anos atrás e penso.
Outras conversas, que agora não interessam. (…)
Apareça cá por casa quando quiser, sabe onde moro. Efraim manda um apertado abraço. Outro meu.
Do seu

Gonçalo V. de S.

“Noites de Outono”


Chego a este quarto de hotel, em Nicosia, a tantos de Agosto de 1986. É de madrugada e o Oriente entra por esta varanda com toques de seda e de cetim fino. No ar paira um aroma quente, exótico. Efraim arruma as malas e os acessórios. A garrafa de Whisky, velhaco!, e um copo!, e gelo! E vem tu também beber desta noite!, peço ao formidável judeu em tom amigável e que carrega anos e anos de confidência.
Que me espera, para lá desta noite e das estrelas que existem depois do nosso olhar sobre elas? Um suave vento sopra do Sul, do Sul onde existem caravanas imaginárias, onde os dromedários tropeçam em séculos de areia e civilizações que passam, como uma chuva.

Este país é um navio.
      Este país é um navio.
            Este país é um navio.
Necessário é escrever durante esta temporada neste país mitológico. Talvez só viva de noite todas estas experiências de vento e calor e estrelas num céu manso e ondulado, que nos chega através do sussurro dos búzios que ficaram lá, longe, na costa.
O vento a soprar, as palmeiras agitam-se num frufru botânico exuberante. Negras e líquidas colunas de folhas respigam num sussurro diletante.

Este país é um navio.
        Este país é um navio.
               Este país é um navio.

Talvez uma noite de sono fosse o ideal para a alma. Mas que é feito da alma a estas horas da madrugada? Traz o whisky, Efraim!
Tenho impressões estranhas, que me parecem surgir entre o estar adormecendo e o estar sonhando. Uma forma de desdormir bastante soaresiana. Hoje tudo é viagem. Portos, aeroportos, estações, terminais, gares, tudo isso são os pontos de encontro deste final de século. Encontramo-nos todos no ponto de viagem, sempre entre esquinas de perguntas casuais e carregadíssimas de uma hipocrisia social maneirista. O estável de hoje é o movimento e a incerteza. Ah! Como é bom ser incerto, não ter certezas de nada ou de sistemas e Ideias!
Deito-me não cansado, mas farto de uma supercivilização. Lembro-me de Jacinto e rio-me como um Cristo milagreiro! Ah! Leituras imbecis de um falso regresso à pureza ufana das serras.
Traz o raio do whisky, Efraim, seu velhaco! Efraim demora, não sei se propositadamente ou se por conta das fotos que trago, sempre, comigo, como companhias feitas de sépia e de tempo. A vontade que tenho, por vezes, de um pouco de passado e de uma vaga possibilidade de te conhecer, Maria Adelaide.
Tenho a certeza da certeza do amor, nos teus lábios quase diáfanos, quase.




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