quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - o Flâneur das Sensações



Meu querido José

Escrevo-lhe hoje,pois amanhã partimos até Bordéus, como lhe prometi.
Faça o que quiser com mais esta impressão dos Cadernos de Nicosia.
O anonimato, só isto lhe peço, como sempre.
E como sempre, 

Muito seu e até breve

Gonçalo V. de Sousa.

"Sonhos suaves"

Que me interessa possuir um grande tesouro em dinheiro se nada substitui este perfume de um doce azul? Não adianto o meu passo para abraçar riquezas ou glórias, todas elas vãs, apetecíveis sim, mas efémeras. Talvez para um jantar, como Carlos e Ega, seja capaz de apressar o passo, mas para a glória de estante, feita de pó e corroída pelo esquecimento, não. Devo ser assim, anónimo, viajando com um vagar ligeiro, como um turista que conhece as coisas e o mundo. Se por fora ou por dentro, isso não interessa.
Grandes capitais europeias, todas elas, Paris, Berlim, Londres, Viena, Roma, Amesterdão, Moscovo e todas as cidades países, parecem, vistas daqui, da varanda do meu quarto de hotel, tão pequenas como aqueles jacintos brancos e azuis. Sim, o mundo é um campo de flores, de lírios e rosas e jacintos e gerberas e girassóis e malmequeres e bemequeres.
Consegues sentir-te nesse mundo de flores, Efraim? Fecha os olhos, amigo. Fecha os olhos e vem comigo.
O vento sopra suavemente, como uma carícia leve e doce, enquanto as mãos parecem embalar os campos coloridos de flores perfumadas e frescas. Mais à frente ouve-se o respigar do trigo, como um lamento seco ao sol, colhido pelas tardes de um Abril que só existe para quem acredita nas coisas belas. Acreditas nas coisas belas? Acredito eu nas coisas belas?

Acreditamos nós nas coisas belas?

Nesse mundo onde é sempre Abril ou Março ou Maio, Efraim, não há necessidade de contar a sucessão dos dias, dos meses, dos anos. O tempo não existe ou, se existe, é de uma forma diferente, sentida através do toque natural das coisas, no cheiro líquido de céus claros e redentores.
Haverá pequenas aldeias, com certeza. E cal nas paredes rústicas onde se guardam as sementes e os rebanhos. A máquina existe de uma forma verdadeiramente necessária, ou seja, para aquecer a água, para nos proteger do frio, para conservar a comida, pouco mais. O mundo existe dentro deste mundo que por vezes teimo em visitar, Efraim.
Sei que tudo isto são sonhos suaves, sonhos sonhados em noites de ócio em varandas de hotéis cosmopolitas que bafejam o mundo com o ar quente e industrializado deste século XX desiludidoSomos o século da desilusão. Da mesma forma que o meu pai me dizia que este século XX era o da desilusão, o meu bisavô disse a meu pai que o século dele fora o do Progresso e da Igualdade. Bem vistas as coisas, foram dois séculos de desilusão, que tinham tudo para ser os maiores e os melhores séculos na história da humanidade. Não por causa do avanço tecnológico, mas sim pelo crescimento e florescimento da nossa consciência de seres com direitos inalienáveis, fundamentais, inevitáveis.
A semente caiu em terra seca. Vieram as revoluções, as comunas em Paris e os levantamentos pela Grécia, Itália, Polónia, Irlanda, Prússia e tantos outros lugares. Vieram os pessimistas e os niilistas. Veio a Guerra em escala industrialmente capitalista, por duas vezes. E a humanidade não cresceu nem regou a semente que caíra da árvore da Liberdade, que parecera nascer já podre. Ganhara a ciência e a humanidade perdera, sempre.
Mas nada disto me faz sorrir com aquele esgar doce e redentor que se tem quando fechamos os olhos e voltamos àquele campo de flores, escutando a dança do vento. Sonhos suaves. Ao longe, uma mulher de cabelos negros, soltos, de vestido também florido, como se o mundo fosse um prolongamento dos seus braços, dos seus olhos, do seus lábios carmim. Leva uma cesta com cravos no braço esquerdo e parece dançar e saltar com a voz do vento que a parece conhecer desde o início dos tempos. Sonhos suaves. Caminho ao encontro daqueles cabelos, daqueles braços, daqueles olhos, daqueles lábios.
Já sinto o odor daquela pele que são mil fragrâncias desconhecidas pelos mundanos que vivem com os olhos de fora. Ela dança com seres invisíveis que a compreendem melhor do que qualquer poeta ou músico. Tudo isto são sonhos suaves.
Ela olha-me até sempre e sorri.

Eu acordo.

Sabemos bem quem era ela, Efraim…


Agora, desliga a música, basta de Träume por hoje, e talvez para sempre.

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