quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Eu poético: «O fim dos dias»

O fim dos dias

cai uma chuva de morte,
sopra um vento gelado
e ouvem-se os pobres a gemer na rua por onde passo.

hoje é dia de te chorar.

na janela daquela casa
avisto uma criança que espreita.
condensa nela a vida que tu abandonaste,
num olhar que afirma
esperança,
amor,
um futuro.

no jardim do cemitério
percebo a presença de um gato.
ele ignora as almas que partiram
e as que se mantêm de pé.
o seu instinto não se presta a essas coisas
dos estados maiores da tristeza.
nunca provou uma lágrima
nem esteve no mar
para sentir o sabor do sal.

o caixão é entregue ao fogo,
os homens e mulheres vestidos de negro afagam-se.
depois cada um toma o seu carro
e volta a casa.

antes de dormir penso:
se na morte um dia descanso em paz,
na vida a minha existência permanece em guerra.

saio na manhã seguinte armado,
pronto a matar os obstáculos à felicidade
- sabendo que são mais os que me derrubam.

e entretanto...
vejo que a criança
sai de casa de mãos dadas à mãe,
os pobres
dormem sob e sobre as caixas de cartão
e o gato
passa por mim levando um pardal na boca.

felizmente há quem viva
indiferente à inevitabilidade
do
fim
dos
dias.

Rodrigo Ferrão
Foto: Rodrigo Ferrão

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