quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Como conheci Gonçalo - parte I

            Serão todos os motivos válidos para um texto?
            Hoje, ainda sem ter recebido algum texto ou carta de Gonçalo, conto-vos o episódio que deu início à nossa amizade.
            Em Coimbra, numa daquelas tardes frescas e preciosas, lívidas de verde e de perfumes que baloiçam pelo Jardim Botânico, encontrava-me sentado num dos bancos de madeira da alameda das tílias, alameda essa que parece um recanto de jardim inglês adormecido em terras de sol, luz, movimento e mar. Era uma tarde de Setembro de 2010, e aquela pequena avenida de dimensões primaveris e sem fim era o local ideal para momentos de solidão e de leitura.
            À época andava a ler A correspondência de Fradique Mendes, narrativa que me deslumbrou desde as primeiras palavras. Fiquei, como Eça, rendido perante o poeta de “As Lapidárias”, versos de uma beleza total, fazendo lembrar os toques rubros e românticos de Baudelaire. Enquanto me perdia pelas viagens do Touriste Fradique Mendes, imaginava-me seu companheiro de viagem, percorrendo as terras da Síria onde em cada esquina, em cada gruta surgem, a cada momento, novas religiões, ou então a penetrar nos Himalaias pelo Nepal ou desaguando no Nilo com o panamá na cabeça e uma sede de soda. Por momentos, eu era o fiel companheiro de viagem de Fradique, e, deste modo, vivia deliciosos momentos de uma felicidade estética e literária, disfarçando assim o humano, tantas vezes inconveniente. Sempre acreditei que as personagens literárias são mais transparentes que os humanos. Mas nessa altura, eu era um jovem na sua primeira fase romântica e revolucionária, sempre embebido do Ideal e do Absoluto.
            A minha concentração nas viagens com Fradique era de tal ordem – perdoem-me a linguagem simples e coloquial, mas sou um simples estudante, não tenho a desenvoltura literária e o gosto exqui de Eça, de Fradique ou de Gonçalo – que não me apercebi que um sujeito se havia sentado a meu lado, naquele banco de jardim do Botânico. (Ainda hoje me questiono: de todos os bancos de jardim do mundo, por quê o meu?)
            Interessante, esse sujeito, não é? Diz-me a pessoa que se sentou a meu lado.
            Quando olhei para este, notei que estava perante um homem dos seus sessenta e muitos anos, usava óculos e tinha um belo cabelo branco brilhante, farto e saudável. Nas mãos tinha um magnífico chapéu Porkpie castanho claro com uma pequena pena de pavão. Vestia-se de forma elegante, casaco, colete e camisa de um chic de romance.

            Deveras! Respondi-lhe eu de forma mediterranicamente apaixonada. Sempre me julguei uma pessoa de trato fácil e acessível, algo que se refletiu na minha conversa com este senhor. Sabe, dizia-me ele, o meu bisavô foi companheiro de Fradique Mendes. (Continua).

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