sexta-feira, 25 de julho de 2014

Gonçalo Viana de Sousa: o Flâneur das Sensações



Volto a escrever-lhe, meu querido José, pois não me senti bem ao enviar-lhe somente aquele horroroso texto desta tarde, que, afinal de contas, era sobre um estúpido luar. Desculpe-me.
Envio-lhe, então, agora, um outro texto, diferente no tom e que vai mais ao encontro da suposta linha caracterizadora de mim mesmo. Repito: suposta linha caracterizadora de mim mesmo. Hoje não lhe posso pedir para vir ter a minha casa. Sinto uma dor de cabeça de não ter ou saber o que escrever. Acredite: pior que um mau whisky ou a falta de formação e não saber, melhor dizendo, não ter que escrever.
 Muito seu

Gonçalo V. de S.


Como poderia eu chorar com vontade de verter lágrimas que seriam tinta de uma caneta de feltro?
Loucuras, loucuras do álcool e das noites mal dormidas ou por dormir. Um dia, o whisky será o meu fim. Mas não hoje. Mas não agora. Bebo como quem vive uma vida longa e plena de sorrisos, felicidade, mas, mais importante, com muitos silêncios e indeterminações semânticas.
Caro leitor, este texto é expressamente para ti, que me lês a horas nocturnas e românticas, ou então a horas de sol e de movimento. São para ti, todas estas palavras, assim como a Arte é para mim todos os dias. Acreditas em Papa John? Acreditas em Maria Adelaide? Se eles existem? Existem tanto como Emma Bovary existe em cada leitura, ou então como Anna Karénina no coração de cada russo que descobre pela primeira vez os seus adúlteros encantos. Se és capaz de acreditar naquilo que conheces das pessoas, como és capaz de não acreditar, ainda que de forma fingida, em todas estas personagens que fiz minhas, não sendo, que amei, não tendo nenhum sentimento íntimo por elas, que persegui, sem jamais as ter encontrado nalguma esquina ou boulevard? Esquece a literatura, cuja vida é uma mera expressão, ínfima, incoerente e incompleta. O melhor fica sempre por dizer. Confesso-te, leitor amigo e peregrino, que nem sempre fui assim, bêbado e amante das coisas belas. Houve um tempo que também fui revolucionário e acreditei na Justiça e na Igualdade como quem diz: água. Também já fui hoplita dos ideais de 68 e de Abril. Fui socialista com os operários de Paris e com Jean Valjean. Já fui tanta coisa. Hoje sou um homem velho, que vive lendo palavras de outros tempos que parecem ser fantásticos e fingidos. Hoje, quase 30 anos depois daquelas noites em Nicosia – sim, para mim os dias são noites e luares, com ou sem lua. Românticos ou Decadentes – escrevo-te, leitor fiel ou curioso, para te dizer que nada mudaria. Talvez tivesse perseguido mais vezes Maria Adelaide, para poder descobrir quem foi e é esta enigmática mulher, personagem, devaneio.
Efraim continua a acompanhar-me, sempre fiel, com a sua barba meditabunda e discretamente generosa. O whisky e o copo continuam a meu lado, como quem fez uma amizade que durou décadas de sacrifícios e tempestades. O fiel Angus dorme beatificamente, como um gato queirosiano, na colcha do meu quarto. A diferença é que, agora, os medicamentos e os tratamentos existem na minha vida como uma ficção desnecessária.
O tempo passa, Ricardo Reis, e diz-nos tanta coisa.
O despertador toca, ao longe, no fundo do quarto. Sinto na boca o talentoso sabor a baunilha, caramelo e chocolate do Whisky. Mas há um outro sabor...

São seis horas, o sol já despontou. Adormeci por breves instantes, assim que Efraim abandonou o quarto e eu apaguei a luz. Sinto nos lábios o ébrio sabor da tinta azul da caneta de feltro de quem supus que fosse o meu criador. Lágrimas? Talvez as suficientes para escrever este texto sem nexo, nem desejo algum de o ter.
Lágrimas? 


Todas.

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