quinta-feira, 24 de julho de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - o Flâneur das Sensações



Eis um texto de Gonçalo Viana de Sousa, com o título de "Impressões ao luar", do seu anti-livro Cadernos de Nicosia.
Este texto surgiu sem nenhuma recomendação, apenas no habitual envelope de papel amarelado e lacrado com as iniciais G. V. S.

Quem somos nós, Efraim, para lá deste luar de Agosto?
O copo acompanha-me como uma sombra, como um piano feito somente de teclas negras.
Quem será Maria Adelaide? Quem será ela? Quem será essa mulher de branco, de pensamentos ebúrneos e de carícias de Primavera? Faço viagens para dentro e não me lembro de alguém com este nome…
Os anos não pesam tanto como as experiências entre o ácido da alma e o álcool portador de novas modernidades. Modernista, eu? Como?
Se falo em Literatura, Efraim, sob este luar prateado e romântico, inevitavelmente viajo até às florestas bávaras, acabando por adormecer, distante, num castelo escocês em ruínas, embalado com o marulhar das ondas célticas de um mar ante-adormecido.
Mas nada disto interessa. A questão do eu muito menos. Já foi algo ruminado tempo demais por gente que não era gente mas o mundo todo em palavras. Depois dele(s), o que ficou por dizer?
Sou, sem sombra de dúvida, a impressão que faço de mim próprio, a impressão que as palavras me permitem criar. Sou, assim, feito de palavras e de ficção. De uma ficção real, verdadeira, objectiva.
Hoje não quero música, Efraim. Podes desligar esse dispositivo e trazer a garrafa de whisky. Sem gelo, tenho sede, muita sede. Traz algo para dormir, também. Uma dose de amor e de esperança, mas ao de leve. Hoje não quero música, nem humanidade. Quero este luar para sempre, prateado, romântico, meu, para sempre. Nada mais.
Quero fundir-me nesta noite que em Nicosia me parece a vida.
Maria Adelaide, Ida Rubinstein, Bovary, Karénina, quem sois? O silêncio olímpico e estupidamente beatífico é a minha resposta. (A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida).
Bebo o whisky de um só gole.
Efraim, que foi que a vida fez comigo?
O fiel butler olha para mim e sorri, com aquele sorriso imaginário que sempre vislumbrei e diz-me, a realidade, Viana de Sousa.
Volto para dentro do quarto, fecho a porta da varanda e deito-me na cama.

Efraim, podes sair, por agora não preciso de mais nada. Apago a luz e tento chorar em vão, com a esperança ridícula que as minhas lágrimas tenham a cor e o sabor de uma caneta de feltro.

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