domingo, 13 de julho de 2014

Forma de belo


"Por mim, se tivesse de escolher uma única forma de Belo não apontaria o Amor – muito menos a generosidade, inteligência ou a vontade de ousar. Tudo isso nos faz ser maiores e oferece-nos um sentido, mas se testemunhasse sobre o que julgo sermos, não hesitaria: o mais maravilhoso que podemos encontrar é um velho coberto de sonhos. 

Nada me comove tanto. Sempre que os vejo juro não desistir dessa estrada carregada de horizonte e utopia. (...) Apenas da nossa inclemência com os velhos que até ao fim falam e esbracejam como se fossem jovens. Dos que não têm medo do ridículo. Dos que execram a expressão ‘sénior’ para substituir a palavra velho, expressão liofilizada que, sob um ridículo manto da dignidade, arruma homens e mulheres num museu do politicamente correcto.

Isso e a ditadura de desejar para os nossos filhos uma vida de vitórias e grandes objectivos. Desejo compreensível e redutor. Porque os que vivem apenas focados nos grandes objectivos (pelos menos os que conheço), crescem deformados e morrem vazios, mesmo que as pessoas os celebrem como pessoas cheias. O mesmo para os que vivem em função do trabalho ou até da condição de pais ou mães. No exercício de viver devemos abrir a porta também ao que não tem aparente importância – gritar por uma equipa, ver filmes, fazer colecções de caixas de fósforos ou o que quer que seja. É nas pequenas coisas que está o oxigénio para as grandes. Sem elas morreremos envenenados de tão tóxicos. E envenenados de contradições."

Excerto da crónica de Luís Osório, 
no Semanário Sol: "Os chineses não adoecem ou morrem"
18-11-2013


Cabanas de Tavira, 2013, foto de Marta Antunes



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