quinta-feira, 17 de julho de 2014

a Ana


A Ana trabalha como recepcionista no consultório de um dentista.
Ninguém gosta de ir ao dentista.
Ninguém gosta especialmente da Ana.
A Ana não tem ninguém a quem telefonar para tomar um café numa esplanada, ir ao cinema, passear na praia.
Como é que isto aconteceu: devagarinho.
E mais não sabe explicar.
A Ana gosta muito de cinema.
Quase toda a gente gosta de cinema.
Podia telefonar a uma amiga (Qual?), uma prima (Qual?), a uma colega de trabalho (Qual?), a um dos sobrinhos (Melhor não.).
Podia entreter os sobrinhos, tem cinco sobrinhos das duas ocupadíssimas irmãs, porém desistiu à terceira tentativa (à terceira é um modo de dizer, foi provavelmente à décima, à décima primeira, a Ana não conta, insiste, não desiste, insiste, sai derrotada), porque, sem condescendências, escolheram sempre o filme e porque insistiram em escolher películas previsíveis e deprimentes, das que rotulam de comédias românticas, como se o amor fosse coisa de rir até à dor de barriga, até às lágrimas nos olhos, e não de sorrir de afecto.
E nunca riu, nem sorriu, quase chorou: de raiva!
E não chorou, pois tudo se aprende ou se perde.
Assim começou a ir ao cinema sozinha, obviamente evitando comédias românticas e outros êxitos de bilheteira. As salas de cinema meio cheias, o que mal camuflava a sua solidão, ela na terceira fila a partir do ecrã, sozinha na fila, sozinha no iluminado intervalo.
Depois as cassetes VHS, os downloads da internet, ela nada user friendly, as salas de cinema depois de meio cheias, completamente vazias, depois de vazias fechadas, para abrirem transformadas em lojas da China, como se outro o país.
E pensa que pouco ou nada sabe sobre cinema chinês, assim de repente lembra-se de Adeus Minha Concubina, um filme de 1993, e lembra-se que tinha 23 anos em 1993 e que a trabalhar desde os dezoito ia ao cinema a expensas próprias, lembra-se que a mãe dizia que era um desperdício de tardes de sol e de dinheiro.
Para a mãe tudo era um desperdício de tardes de sol e de dinheiro, e pensa que nunca viu a mãe passar uma tarde de sol fora da cozinha.
Foi cozinheira, criou as filhas a rissóis de carne e de camarão que vendia para fora, duas filhas formadas à custa de rissóis de carne e de camarão, e a terceira, a mais nova, a Ana, que para seu desgosto não quis estudar nem sabe bem o que quer da vida, dizia, com o cuidado de não usar a palavra desperdício.
Em rigor a mãe era costureira, porém a viuvez precoce obrigou-a a acrescentar às horas dos dias, o labor de cozinheira das horas das noites. Aos cartões de contacto como costureira, acrescentou a filha mais velha, a esferográfica azul e na letra de menina de escola primária que então era: fazem-se bolos e rissóis para fora.
A verdade é que bolos poucos fez, e não que não lhe saíssem bons e conformes às fotografias dos livros de receitas, nem que os não desenformasse inteiros e perfeitos, o problema era ulterior, no momento de os decorar, todos sem graça, e como primeiro as bocas comem com os olhos, uma desgraça, assim, pelos bolos o negócio não prosperou, e a bem dizer nem falta fez, porque os rissóis um sucesso, quantos mais fazia mais vendia, no fogão duas frigideiras a borbulhar em permanência, e a casa a cheirar a fritos, desde a alcatifa do chão às sanefas dos cortinados, pelo que a mãe da Ana passou a atender as clientes da costura ao domicílio, conciliando sempre que podia as provas de roupa com a entrega de encomendas de rissóis, tudo cartando, caixa de costura, tecidos e fritos, num carrinho de mão que puxava como um elefante pela trela pelo chão da cidade.
Enfim, continuando, não tem nenhum realizador chinês que a encante, diz a verdade Ana, repreende-se a si própria, não se lembra de nenhum, somos tão descuidados que metade do que dizemos são mentiras sobre minudências, e conclui, quando os chineses começarem a fazer cinema, quando o cinema for negócio da China, vão especializar-se em comédias românticas, conclui com desdém e orgulho na piada que acabou de magicar, para se arrepender de imediato, porque sabe que só os ignorantes são patetas o suficiente para rir e desdenhar sobre o que nada sabem, e no entanto há dias em que lhes tem inveja, aos ignorantes, explica-se, não é bonito mas é assim, por perceber que são construtores de felicidades sólidas.
No seu caso sólida: a solidão.
A Ana trabalha como recepcionista no consultório do Dr. Jardim há mais de vinte anos.
Quando entrou em funções, era uma rapariga nova, o corpo pouco gasto, os sonhos por usar, e o Dr. Jardim um homem de meia-idade, uma dentadura impecável, que o fazia sorrir por tudo e por nada, uma cabeleira, apesar do cinza nas fontes, farta e forte.
Agora é ela a que está nisso a que chamam de meia-idade, uma dentadura razoável, come demasiados chocolates, o cabelo pintado em tons de cobre e mais quarenta quilos.
Engordou à razão de dois quilos por ano, de forma lenta e inexorável, culpa do chocolate e da solidão.
E entre a solidão e a solidão, apenas o Dr. Jardim.
O Dr. Jardim que também gosta de cinema.
O Dr. Jardim que há 20 anos atrás a convidava para ir ao cinema.
Era Verão, depois do cinema um refresco numa das esplanadas da praça, mesmo há 20 anos ninguém dizia refresco, o Dr. Jardim dizia e efectivamente o corpo refrescava.
Foi um Verão fresco e feliz.
Trabalhou durante todo o Verão, dentro do conforto do ar condicionado do consultório do Dr. Jardim, dentro do ar condicionado das salas de cinema, do shopping, do supermercado, a ventilação do carro, a ventoinha de casa, a brisa nocturna residente nas esplanadas da praça.
A Ana a levitar dentro de vestidos finos e frescos, todos feitos pelas mãos da mãe. Vestidos que antes de vestir farejava como um cão de caça, para despistar o medo maior de encontrar o cheiro a fritos no tecido, porque o cheiro a fritos sempre no seu nariz.
A respirar um ar artificialmente suportável, em estado de respiração assistida.
O Verão quente, em chamas, o ar irrespirável.
A Ana dentro de um balão.
A Ana e o Dr. Jardim dentro de um balão.
Sobe, sobe, balão sobe
Vai pedir àquela estrela
Que me deixe lá viver e sonhar
Alheios às catástrofes num Verão que ficou para a história pela quantidade de incêndios, de terra ardida, de terra carbonizada.
Até que o fim do Verão, as primeiras chuvas, sobre os corpos casaquinhos de malha, e a mãe da Ana ao perceber, boca afiada de alfinete, óleo a ferver, a rebentar o balão, como quem inadvertidamente a coser, apesar do dedal, pica um dedo.
E descuido nenhum, que a mãe da Ana nunca deixou queimar um único rissol, nem tolheu uma peça de roupa por mal medir ou mal cortar o tecido, nada de desperdícios, uma vida inteira sem desperdícios, desperdiçada.
A Ana projectada à revelia e sem destino, a cair no chão sem amparo.
A Ana e a sua dor: ainda nem era amor.
Nem um beijo, nem mãos dadas, apenas conversas intermináveis sobre cinema.
Foi o Dr. Jardim que lhe apresentou o Bergman, ela encantada, Mónica e o desejo, poderia o Dr. Jardim ser o desejo?
Como é que era possível não conhecer o cineasta sueco? – Perguntou-lhe.
Era possível não conhecer o Bergman assim como era possível ter quase dezanove anos e nunca ter sido beijada, nem beijo de faz de conta, como dizem são os beijos de cinema, nem beijo nenhum, ou era possível porque cresceu numa casa onde faltou tudo, até o Bergman menos a comida na mesa (não sabe dizer quantos rissóis, de camarão ou de carne, comeu na vida, sabe dizer quantos beijos não deu: todos), menos a roupa no corpo, menos o dinheiro para os livros da escola, e que se lembre nunca viu o Bergman num livro de escola, talvez se os livros da escola falassem sobre cinema não tivesse desistido da escola, não sabe dizer, nunca gostou de estudar, não era como as irmãs, sempre agarradas aos livros, só tinha olhos para a televisão, ou era possível porque… eram tantas as respostas possíveis, porém nada respondeu, apenas encolheu os ombros tentou e esboçou um sorriso torto, o que também era uma resposta possível.
A mãe, que também não sabia quem era o Bergman, boca afiada de alfinete, a rebentar as suas ilusões-balão, a desalinhavar sem dó todas as esperanças, talvez sem más intenções, talvez apenas por não perceber que podia ser amor, pois que apenas queria o melhor para a filha, para todas as filhas, uma vida por medida e por encomenda, talvez como os rissóis, à dúzia, à dúzia e meia, às duas dúzias, que a vida não pode ser vivida sem medida, desmedida, que apesar de viúvo, guarde Deus a finada no seu eterno descanso, o Dr. Jardim tinha o dobro da sua idade, tinha filhos da sua idade, sobravam-lhe anos (tecido?) nos ombros, nas mangas, nas costas, que o tecido e o corte de má qualidade, sem arranjo ou remendo possível.
Sobravam agora para depois faltar, encolher, mirrar, ficar uva-passa, porque a vida passa.
E a vida foi passando, mais de vinte anos, enquanto a Ana alargava e sobrava, dentro da roupa, sobre o sofá, na cadeira ao balcão de recepção no consultório do Dr. Jardim, a vida foi passando em separado, sem sabermos como teria sido se juntos, cosidos um ao outro ou fritos como um rissol.
E às vezes, quase nunca, cruzam-se numa sala de cinema, ela na terceira fila a contar do ecrã, ele na quarta, cada um a camuflar a sua solidão.

Raquel Serejo Martins




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