sexta-feira, 6 de junho de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Acabo de receber, caros amigos, pelo correio, azul, com urgência!, uma carta de Gonçalo que transcrevo, pois a carta não é mais nem menos do que mais umas impressões dos seus Cadernos de Nicosia.
Ora, este texto, intitulado "Impressões sobre Tannhäuser" serve como uma tentativa de explicação do conto  Lágrimas de Abril na sua totalidade!
Transcrevo o que Gonçalo que disse na sua carta: "Meu Querido José, peço-lhe que, antes de publicar a última parte do conto que na seguinte lhe envio, faça publicar estas impressões, ainda que com pouco nexo, sobre o amor e personagem que ama Maria Adelaide. No fundo, Maria Adelaide é uma e todas as mulheres, ou talvez não. Nunca fui dogmático, além do mais, a Literatura nunca precisou de mim. Por isso, peço-lhe, pelo cão, diria Sócrates, que me faça publicar estas linhas quase sem nexo, e já com alguns anos, sobre aquilo que já pensei sobre Wagner e o Amor. O que penso, hoje, daria outra carta, outra conversa.
Espero que encontre pela internet a abertura de Tannhäuser, para que se leia o conto completo ao som desse tão saboroso mundo encantado.
Muito seu.
Gonçalo V. de S.

“A caridade é paciente, a caridade é bondosa. Não tem inveja. A caridade não é orgulhosa.” (I Cor. 13,4).
O amor é capaz de superar todas as ameaças, todas as adversidades, todos os males, todas as injustiças, todas as guerras, fomes, pestes, silêncios. O amor é capaz de superar a própria vida e a morte.
Que impressões, então, de angústia, são estas que sinto ao escutar a abertura de Tannhäuser no meu quarto de hotel, com as janelas abertas para as ruas largas? Ao fundo, a Universidade do Chipre e a promessa, talvez, de uma tarde perfeita. Falta-me a personagem feminina. Onde estás, Maria Adelaide?
            No meu quarto uma pequena estátua de Vénus e talvez seja por isso que escuto esta abertura de Wagner. Não sei. Só sei que é um aperto enorme no coração, um aperto angustiadamente bom e saudável. Uma dor carinhosa, como um quase síndrome de Stendhal.
            Wagner, de tão cerebral que é, foi mais romântico que todos os heróis de Hugo ou Camilo. Tannhäuser é o Gilgamesh da nossa cultura, e até Deus se curvou perante ele, ao fazer florir o seu cajado!
            Aqui, nesta ilha onde se cruza o Egipto e todo o Norte de África, toda a Europa Mediterrânica, toda a costa da Palestina e das terras divinas para as religiões do Livro, que são porta para o Tigre e o Eufrates, porta para os pais da escrita e da narrativa, aqui, em Nicosia, no Chipre, vislumbro Vénus e Tannhäuser e Elisabeth, o papa e as paisagens italianas pintadas num céu azul e laranja, enquanto o vento fustiga as oliveiras e o cheiro a pão quente com azeitonas e vinho paira pelas colinas quase verdejantes do meu viajar interior. Sempre a mesma questão: quem é Wagner para me enfeitiçar com esta angustiada e prazerosa dor que quase dá vontade de chorar sem saber, verdadeiramente, por quê? Por quê? Por quê, Richard Wagner? Quem és tu? Bardo? Pastor? Poeta? Louco?
            “A caridade jamais acabará.” (I Cor. 13,8) Pasmo perante São Paulo e as suas reflexões, que são Cristo, sobre a caridade, o perdão e o amor. Quem é Vénus senão todas as mulheres e todo o desejo puro e carnal? Sim, porque o desejo carnal também é puro, pois, feitos à imagem e semelhança de Deus, Este também é carne, mas carne que não se corrompe em si. Deus corrompe-se em cada um de nós. Quanto mais amamos, mais nos corrompemos! Quanto maior é a nossa corrupção, maior será o divino e a alteza e magnanimidade de Deus! É o nosso amor que faz de Deus o que Ele é: ser supremo criador de criaturas que sem amar não são nada! Tannhäuser, Tannhäuser, Tannhäuser! Como é que não podias tu, amante incondicional, ter o perdão divino? O teu cajado floriu, assim como o de José mil anos antes.
Somos todos Vénus e Tannhäusers, pois somos feitos de pureza, corrupção e amor. “Quando chegar o que é perfeito, o imperfeito desaparecerá” (I Cor. 13,10). Até lá, pequemos e sejamos impuros: amando-nos.
            O amor é o veneno e o antídoto. Maria Adelaide, que é feito de ti? Maria Adelaide? Maria Adelaide?
            Volto para o quarto e fecho a janela. O calor é abrasador e o meu refresco terminou. Pensei em voltar a sair à rua. O panamá olha-me, pensativo, à espera de uma resposta nos jardins de Nicosia. Água com gás e menta! E soda! Soda e limão, em doses barrocas!, grito eu para o velho Efraim.
            Sento-me no chaise-longue. Abro um livro à sorte.
            “Tudo o que sei… só sei porque amo.”
           


 https://www.youtube.com/watch?v=SRmCEGHt-Qk (A pedido de Gonçalo, para ouvir enquanto se lê estas impressões e o conto Lágrimas de Abril, quando este estiver completo)

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