quinta-feira, 19 de junho de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações



Continuamos com as impressões de Gonçalo, o nosso flâneur, do seu livro Cadernos de Nicosia.
Desta vez, realidade e ficção misturadas até ao ponto final mais remoto.
Afinal, vivemos factos ou mentiras necessárias?


"Noites de Tchaikovsky" (Piano concerto n.1 )

Algo estranho parece acontecer sempre que escuto Piotr Tchaikovsky. É o piano saltitando entre os dedos nervosos e finos do pianista que actuou esta noite no Teatro de Nicosia. Não sei se será do piano ou dos instrumentos de sopro, mas toda aquela melopeia romântica e líquida fez-me percorrer as margens do Neva. Encontro-me na varanda do meu quarto de hotel em Nicosia e percorro as avenidas de S. Petersburgo em Novembro. Efraim acompanha-me, com a sua barba rala e o sempre chapéu bonacheirão. A neve abunda pelas ruas e pelas pequenas ilhas. Viajo no espaço e no tempo. Julgo ver, ao longe, num dog-cart elegante e colorido, o conde Vronski falando com Lévin enquanto o príncipe Oblonski bebe longos tragos de vodka.
Encontro-me dentro das palavras de alguém famoso, num mundo que não foi por mim criado nem pensado. Viajo entre Moscovo e Petersburgo pelo comboio. As gares atulhadas de caixotes e de moços de fretes, senhoras com luvas e rendas e sombrinhas.
A neve existe como uma força implacável.  Um ou outro camponês carregam os caixotes dos senhores e das madames da primeira classe. Teodoro? Mujiques?
Ao fundo, uma senhora alta, de porte elegante, com uns olhos penetrantes e um belo cabelo negro, comprido e com certeza perfumado, entra numa das carruagens. Efraim tenta acompanhar o meu passo acelerado até ao encontro desta senhora. Passo por um dos guardas da estação e pergunto-lhe quem era a tal madame portentosa e com uns olhos que enfeitiçam. O guarda, ruivo e todo encafuado no seu fato azul escuro, responde-me que é a princesa Karenina. Agradeço-lhe a informação, entregando-lhe uma nota de cinco rublos. Efraim olha-me de lado após esta acção.
São duas da madrugada, Tchaikovsky existe com muita força e perco-me em ficções desnecessárias. Da varanda do meu quarto, em Nicosia, a esta hora, não se ouve mais que os últimos vagabundos dos bares e dos clubes. Os homens do lixo em breve começarão a sua ladainha. Ainda se nota o calor. Efraim dormita no chaise-longue. Sempre nos permitimos viver um com o outro sem qualquer noção ou pretensão de classe. Isso, diria Sena, são coisas de “cretino”.
A minha soda está no fim, o ar fresco da noite finalmente é leve. No horizonte, talvez a promessa de mares e de viagens em paquetes luxuosos e espaçosos.
Contudo, prefiro o meu quarto a esta hora da noite em que Tchaikovsky e Efraim me acompanham.
Volto àquela gare. Esforço-me para alcançar a carruagem da princesa Karenina. Ainda a consigo alcançar. Ainda conseguimos, menino, diz-me Efraim que por momentos me pareceu João da Ega a correr.
Fecho os olhos, as imagens sucedem-se como num filme que se colocou a andar para trás a uma velocidade estonteante.
Estou novamente no quarto. Visto a camisa e saio para as ruas de Nicosia. Efraim dorme que nem um santo barroco.
Na avenida da Universidade sento-me num banco. Tenho vontade de fumar a alma, mas são altas horas da madrugada e o mais sensato é não continuar com a escrita.
Do outro lado da rua, Tchaikovsky sorri só para mim, caminhando com o seu passo largo, loiro e travadinho.
O piano enceta as notas finais. Abro os olhos e estou na varanda do meu quarto.
A vida é bela e plena com estas pequenas ficções (des)necessárias!


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