quarta-feira, 28 de maio de 2014

Gonçalo Viana de Sousa - O Flâneur das Sensações


O Flâneur já conhecido por todos nós revela-nos, agora, alguns dos seus apontamentos feitos nas suas viagens pelo mundo.
Começamos por este excerto de os "Cadernos de Nicosia".
Música e o Infinito, verdades angustiantes e redentoras.


Nada me obriga a escrever ou a sentir. Nem a vida, paixões amorosas, sonhos, desejos, segredos ardentes. Nem mesmo Deus.
Que vale, para mim, Wagner e esta sua composição? Não sei. Um terno apego, com sabores de lareira e chocolate quente, talvez croissants e uma manhã de céu nublado em Paris. Talvez uma sala de mogno, novamente a lareira, as canas de pesca a um canto, uma ninfa coberta por um cobertor de peles quentes e a minha falta de desejo de humanidade. Talvez. Que poder embriagante é este que a música tem sobre mim? Como resistir? Melhor, como poder descrever tal estado? Como transmitir em palavras que não sejam ténues e banais todas as cores e sensações do mundo? Uma manhã de Natal azul e familiar, um lume de sorrisos e um embalo de vozes conhecidas. Talvez os pais com o seu menino no colo. Talvez eu próprio e uma mulher, ou musa, acariciando um filho que nunca pensei ter, mesmo quando a música me leva às florestas do Danúbio, às encostas da Baviera e um sol que promete ser para sempre. Quem és tu, Richard Wagner? Quem te deu tal poder, autoridade, para hipnotizar os sentidos, sempre os sentidos, e libertar este divagar racional e áspero?
Quem poderia ser a minha Cosima, o nosso pequeno Fidi? E porque escrevo eu, para ti, leitor que irás, um dia, bem mais tarde, ler, ou não, estas argonautas impressões de um homem de meia idade e com vontade de chorar por razão nenhuma?
Falho os meus propósitos, e tudo me parece fazer escrever e sentir, acreditando na vida, nas paixões ardentes, nos sonhos e segredos íntimos que nunca supus meus. Que adianta fugir, sempre e sempre, a este hábito vagabundo de nada querer e acabar por abraçar o Absoluto?
Wagner, Wagner, Wagner! Talvez uns tons de arabesco, ainda que subtis, para me refrescarem a memória nesta tarde de meditabundo calor. Groselha e talvez água com gás e menta. Ou então soda, e limão, muito limão!
            Quem precisa de uma manhã de Natal para escrever sobre o mundo e as suas paranoias? Tudo é doentio, e, ao mesmo tempo, deslumbrante, como se tudo fosse uma primeira vez. Homem, Deus, Mundo, Arte. É sempre um alfa, ainda que despido do avesso. Sim, despido. Nu, como todos somos por dentro, farrapos de um universo que nos foi entregue sem o termos pedido.
            Pergunto-me se faz sentido algum todo este acumular de palavras ao som de Wagner. Como uma energia invisível. Cada nota a ecoar para sempre. Música a nascer. Para sempre. O Absoluto é ensurdecedor, encantador, esmagador, eterno. Para sempre.
            Fecho o caderno, acabo de beber o refresco. Saio do hotel com o desejo do Mediterrâneo – e Minos tão perto – com o desejo de mar antigo a cheirar a hortelã e talvez a azeitonas pretas. Coloco o panamá. Faz calor. Nicosia é um estado de alma. Wagner continua a fazer sentido. Só o silêncio serve para descrever o Belo. O silêncio e o olhar. Talvez a escuridão. Wagner continua, e continuará em mim, e em ti, e nestas palavras, enquanto houver leitores e quem escute com os olhos e o silêncio de dentro.
            Pensei ser capaz de acreditar na humanidade. Talvez. Mas, neste momento, quero o mar, ainda que seja como mera impressão, e o desejo de viver para sempre nestas palavras invisíveis que abraçam a pauta, os violinos, Cosima e Fidi. Já os vejo, ao final da linha, de gorro e cachecol. (o final será Nicosia ou o mundo e nada me move). Neva e faz frio dentro de mim, enquanto o calor aperta, aqui, em Nicosia.


 (https://www.youtube.com/watch?v=891JUSQplzU) - Foi esta a melodia proposta por Gonçalo, espero que desfrutem.

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