quinta-feira, 17 de abril de 2014

Poesia que passa ao lado #7

A queda


Os amigos rodeiam-se da calma necessária
em que eu somente me deixo transparecer. Dentro
de cada um existe um pedaço de vidro e de papel, como
se me despedaçasse quando me atiram
pedras.

O suor surge quando menos se quer que
se erga a cidade. Hoje é difícil criarmos-nos,
porque todos se deixam diluir como as
músicas como as palavras ao descerem
a pele em direcção ao rosto.

Deixa-se surgir a verdade. Deixa-se transparecer
pelo corpo     enquanto se foge do que
não sei. Enquanto. Durante a longa queda -
que se esvanece nos cabelos - existe um pequeno
lugar - junto aos dedos, não muito perto da mão -
onde todos os poemas nascem e morrem.

Onde todas as crianças crescem ou
desaparecem.

Como estas paredes que se desenham, com sorrisos
em lugar de quadros, com olhares despertos e interessados
no cansaço das minhas pálpebras.

Deixa-se correr a tinta pelos quadris,
ao molhar-se a pele chega o momento certo:
onde a bala do tempo se contorce.

Nem uma silva de prata a zunir pelo
quarteirão, um corte no peito, uma tentativa
de roubar de mim aquilo que nem eu tenho

como se fossem palavras ou gestos que
se esquecem quando o quarto fica escuro e só se
vêem diamantes e frases semi-apagadas.

Perco pela rua a roupa porque assim
me possuo. Porque assim consigo ver a tua face
onde ela já não existe.

Hoje está difícil andar. Está calor.
No adro da igreja ouvem-se pardais e pombos por
onde não quero passar.

O único caminho é por debaixo do peso
da explicação. Por debaixo de mim erguem-se vozes
que se assemelham a um poço de sangue

a um sorriso sem intenção.

É por isso que, quando nos reflectem
os braços do rio, nos esquecemos de dormir
enquanto implodimos dentro de alguém

como um poema.

Deixamo-los partir para que nada reste
deles - os amigos - e aí perguntam-nos
como nos sentimos e respondemos em silêncio
porque nada mais resta.




Sérgio Xarepe
*poema sugerido por Soraya Semenzato
*pintura de Jose Royo

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