quarta-feira, 12 de março de 2014

Um barulho em tons de azul



Nasceu numa ilha.
Uma de nove.
Se fizesse a prova dos nove, noves fora zero ou um arquipélago.
Quando lhe perguntavam de onde era, primeiro dizia o nome de um arquipélago.
Um arquipélago no meio do Atlântico, a caminho para a América.
Só à segunda pergunta falava da sua ilha.
A Terceira.
E contava das lagoas, das caldeiras, das serras, do vulcão, do chá, do tabaco, da cana-de-açúcar, das vacas, dos donuts, dos aviões, dos óculos à aviador, dos americanos.
Mais contava que houve um tempo em que a todo arquipélago chamavam as Ilhas Terceiras, em respeito pela ordem cronológica das descobertas, porque depois do arquipélago das Canárias, as Ilhas Primeiras e do arquipélago da Madeira, as Ilhas Segundas.
Depois, como se houvesse uma ordem, contava dos naufrágios, das embarcações, das fragatas, das escunas, dos navios, dos vapores, dos lugres, dos brigues, das galeras, dos iates e dos patachos e das tempestades, dos ciclones, do vento carpinteiro.
Vento carpinteiro? – Perguntavam com um ponto de interrogação vertical como um ponto de exclamação.
Contava e ninguém sabia.
Contava e escutavam, uns curiosos, outros entediados, nunca precisou de um bocejo ou de um olhar camuflado para um relógio, de pulso ou de parede, para perceber um ouvinte em estado de tédio.
Perante o enfado alheio o seu silêncio.
Sabe que não deve gastar o latim em vão.
Sabe que em regra as pessoas perguntam sem querer saber a resposta.
Não sabe porque é assim. Apenas é.
Assim que em regra o seu silêncio.
Assim, nunca chegou a contar, como se houvesse uma ordem, como é viver à deriva no mar sob um céu baixo e aquático.
Como é viver sufocado por água por todos os lados e por horizontes intermináveis.
Como é viver sem chão, porque dentro de um barco.
Desde pequeno as palavras do avô, sempre as mesmas, que as ilhas são, naves, navios, feitos de chão e pedra, um chão sem habitantes, porque num navio: tripulantes.
Talvez por isso, não sabe dizer, meteu-se como o avô a marinheiro.
Envelheceu também.
A velhice é um naufrágio.
Hoje, com a mesma idade e sem avô, parece o avô, nos olhos o mesmo azul desbotado e líquido, as rugas iguais na forma iguais no lugar, e para evitar morrer do mesmo mal a boca vazia porque sem o cachimbo por inquilino, os dentes em melhor estado, percebe a insuportabilidade da solidão e a necessidade de falar mesmo quando ninguém a ouvir, apesar do seu silêncio ou do barulho das cagarras sobre o mar.



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