quinta-feira, 27 de março de 2014

Eu poético: «Pilhas»

Pilhas

pediste-me para pegar num bisturi
e te abrir ao meio.

procura o coração - disseste.
respondi a pronto: para quê esse trabalho?

aí só encontro
ódio,
rancor,
inveja,
ciúme,
raiva.

já não consigo lembrar quem foste,
o que sonhaste
e o que queres.

não vislumbro
alma,
sonho,
desejo.

és sinal stop.
já não és sentido único.

acabou.
estou farto de adormecer abraçado a fantasmas.

a verdade é que tens tripas
(no
lugar
onde
devia
bater
qualquer
coisa).

aí não pode haver espaço para a emoção.
és fria como um ditador,
distante daqui à lua,
gelada como o fim do mundo,
inóspita,
seca.

és como uma máquina qualquer -
só sobrevives porque és alimentada
»»»
»»
»
a
pilhas.

Rodrigo Ferrão

Foto: Rodrigo Ferrão

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