quinta-feira, 13 de março de 2014

Eu poético: «Morrer»

Morrer

só existem três formas de morrer.

morrer devagar.
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a tempo de dizer adeus,
pedir desculpa uma vez mais
e saber perdoar quem nos magoou.

começamos a arrumar a casa,
a tratar dos papéis.
convocamos os interessados no património
e deixamos as memórias escritas numa caixa.
saboreamos o pôr-do-sol como se fosse o último,
comovemo-nos com a promessa de uma onda no mar
e com o nascimento de uma vida.

(sim, uma vida que vem tomar a nossa).

devagar sofremos a conta-gotas,
revoltados com a ideia de um futuro.
os nossos sonhos passam a condição
e são arrumados na estratosfera da consciência.

deixamos de mandar em nós,
agora quem manda é o corpo.
o corpo que todos os dias apodrece.
sempre mais.
sempre um bocadinho mais...

morrer de repente.
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sem tempo para dizer um ai
ou sequer ver a vida em rodapé.

a surpresa instala-se:
"ainda ontem estava tão bem, comadre.
e olhe, já cá não está...
a vida é mesmo assim -
não valemos nada, mesmo nada."

fica tudo desarrumado, mesmo o mais íntimo segredo.
e os outros questionam-se do paradeiro do número de conta,
onde estão as chaves de casa
e quem é aquele que afirma ser o filho.

não há tempo para pagar dívidas
nem para gozar o dinheiro que nos sobra.
alguém fica com ele, no problem.
who cares?
who fucking cares?

morrer de amor.
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morrer
de
amor
não
tem
explicação
nos
poemas.

Rodrigo Ferrão
Foto: Rodrigo Ferrão

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