segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Literatura Alemã


Lia um livro em alemão, o que talvez sirva de explicação para os seus olhos azuis.
Ou não, porque de um azul de mar mediterrânico.
Eu encantado, encandeado, pela luz azul dos seus olhos.
Luz azul, lembra-me sempre lâmpadas florescentes.
No seu olhar nada de plástico ou artificial.
Fogo de artifício no meu estômago.
Eu de olhos nos seus olhos.
Ela de olhos nas páginas do livro.
Sentia-me um marinheiro, um almirante, um Vasco da Gama a caminho da Índia, mas desta vez a viagem, as caravelas, pelo Mar do Norte para uma breve paragem em terras germânicas, até que, provavelmente por se sentir observada, procurou os olhos do observador.
Encontrou-me.
Segurei-lhe o olhar cinco segundos.
Ou suportei-lhe o olhar cinco segundos.
Um-dois-três-quatro-cinco, como um boxeador sem força ou talento, os meus olhos foram ao tapete, fiquei K.O. no 1.º round.
Os meus olhos caíram na capa do livro em alemão, o livro nas suas mãos, caíram quase dentro das suas mãos.
Die Geburt der Tragödie
Quatro olhos concentrados no mesmo objecto, concentrados por dentro e por fora.
Eu em pânico, sem me atrever a mudar os olhos de lugar, um pânico excessivo, inexplicável.
Encantado, encandeado, também com os seus dedos, uns mindinhos tão bonitos, e os fura-bolos perfeitos!
Die Geburt der Tragödie
Fixei o título do livro, como se decorasse uma morada onde a pudesse encontrar.
Consegui decorar o título antes de arrumar o livro na mochila, deixando-me como uma barata, sem saber onde pousar os olhos.
Levantou-se e saiu da carruagem quando as portas se voltaram a abrir.
Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio.
Ouvi como se chamassem por mim, eu sem perceber o que estava a acontecer porque os meus olhos longe, nos atacadores dos seus sapatos, que a gritos discutiam comigo o dia em que seriam mais uma vez engraxados. E a discussão inflamava, calcinava-me a paciência, não por falta de agenda mas porque detesto engraxar sapatos, para mais com atacadores, em que para um serviço bem feito, é conveniente tirar e voltar a pôr os atacadores.
Assim, os meus olhos longe, nos atacadores dos sapatos.
O mundo em câmara lenta.
Não sei quanto tempo assim, em câmara lenta, até que sem aviso, o mundo de novo em movimento, o toque do despertador, e não do despertador que eu não em casa, não no quarto, a severidade sonora do apito do metro, que avisa e anuncia o fechar das portas, eu a levantar-me, eu a correr, queria correr, eu quase a bater com o nariz na porta já fechada.
Ela saiu na Estação do Jardim Zoológico, guardo, resignado, a informação.
Volto a sentar-me, resignado.
Chego ao trabalho, resignado.
E antes de tudo, do café, dos cinco minutos de treta da bola, apesar do meu clube ontem três a zero para mais contra a melhor equipa inglesa do momento, de verificar o e-mail e a papelada sobre a secretária, antes de tudo, pesquiso na internet:
Die Geburt der Tragödie
O Nascimento da Tragédia
As minhas suspeitas confirmam-se.
Eu, assustado, quase em pânico, pois só pode ser isto o que sinto, o que nunca antes senti, uma febre sôfrega, um vírus, uma doença, estou apaixonado.
Vinte e quatro hora depois o mesmo estado, talvez mais grave, a febre sôfrega mais ávida, pelo que, não tendo termómetro em casa, penso em passar por uma farmácia.
E o meu problema maior, insolúvel, como é que eu faço para encontrar uma pessoa pelo título de um livro no meio, menina ao meio, de três milhões de pessoas.
E se não estiver no meio, mas num vértice, numa aresta.
E se turista.
E se dentro de um avião de regresso a casa.
E se a sorte do meu lado e a encontrar, como é que eu falo do meu bem-querer, da minha febre sôfrega, sem saber uma palavra de alemão.
Talvez lhe pegue na mão. - Penso e lembro-me que tem uns mindinhos tão bonitos.
Será que me deixa pegar-lhe na mão? Levar-lhe a mão primeiro à minha testa, depois ao lugar onde o meu coração bate acelerado e, em estado de absoluta surpresa arrancar-lhe o primeiro beijo!

Assim os seus sonhos, quase diários, anda de metro de segunda a sexta.
Sonhos em febre sôfrega, porque a cada dia um detalhe, um livro, um botão, um guarda-chuva, um nariz, uns lábios pintados, um sorriso.
Porque se a encontrasse, se as encontrasse!, anda de metro de segunda a sexta, o problema maior, recusava-se a dizer I love you, nesse esperanto para estrangeiro perceber.
Recusava-se, ai, ai... que o mesmo é quer dizer, não consegue, não se atreve, mesmo nos treinos matinais em frente ao espelho enquanto faz a barba não lhe sai, nunca passou de um simples gosto de ti, cume da montanha, cereja no topo do bolo, cuja aplicação reduz à mãe, uma mãe de quem gosta, que de uma mãe mais do que se gosta.
Não consegue mais, pelo que consciente da sua incompetência, abandona estes pensamentos loiros e audazes, repete os pensamentos nos mindinhos, tão bonitos, pousa os pés no chão, e a penas, mais uma vez resignado pensa, que ainda não foi desta, que quando for de verdade não vai deixar que as portas do metro se fechem, mesmo se partir o nariz.
Que um nariz partido por um amor não lhe parece sequer tragédia.
E de nariz partido vai, pela primeira vez, dizer a palavra amor!
 
Raquel Serejo Martins



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