sábado, 1 de fevereiro de 2014

Carla Sá sobre «O senhor Pina» de Álvaro Magalhães


O senhor Pina
“O senhor Pina”, de Álvaro Magalhães é um livro-homenagem em que o seu autor ergue um retrato sensível e bem humorado do amigo, recentemente falecido, grande poeta (Prémio Camões 2011) e autor infanto-juvenil fundamental. 
Ao longo de 16 episódios, Álvaro Magalhães entretece o registo real com o ficcional para chegar a um sentimento de verdade, pois a verdade em literatura, como disse Manuel António Pina, é sentimento. Não admira, portanto, que o livro acabe com o seguinte diálogo entre o senhor Pina e o urso Puff (personagem de A.A. Milne que era uma referência dos dois autores, Álvaro Magalhães e Pina): “Parece que o livro acabou. Mas, afinal, isto é verdade, ou não? Ou é tudo imaginação? “, pergunta Puff; e o o senhor Pina responde: “Isto é verdade e não. E é tudo imaginação”.
É pois através de Puff, o urso com poucos miolos que empurra o senhor Pina, para deliciosas expedições em busca da “poesia fora dos poemas”, que se vai revelando o modo peculiar como aquele autor olhava a vida e a literatura.
Assim, tanto deparamos com episódios sobre a génese criativa de poemas e histórias, como sobre o seu lado mais humano e risonho (o Pina cheio de graça), com as suas idiossincrasias aqui, perfeitamente assinaladas: a falta de pontualidade, a procrastinação, o apego ao bigode, o gosto pelos advérbios, a arte de inventar desculpas, etc. Isto porque, como muito bem anuncia a epígrafe do livro: “As coisas sérias que cómicas que são”.
Um livro para crianças? Claro que não, embora, pela sua singularidade, elevação e acerto, escape aos protocolos mais imediatos da recepção. Livros assim servem para nos lembrar que não há géneros literários, apenas literatura. Ou, como diz, a certa altura o senhor Pina, quando ele for lido por uma criança é um livro para crianças, quando for lido por um adulto é um livro para adultos. Os livros não são “para”, os livros são.
*uma opinião de Carla Sá, seguidora do blog.

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