segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

ALA ... que é poesia VIII

Dizem que hoje é o dia mais triste do ano, a chamada "Blue Monday". Uma valente treta pseudo-científica lançada por Cliff Arnall, psicólogo da universidade de Cardiff, no País de Gales, que é levada a sério aí por alguns cantos do mundo. 

Diz o cavalheiro que a terceira segunda-feira de Janeiro é o dia do ano no qual as pessoas se sentem mais tristes. Chegou a esta brilhante conclusão, ao que se sabe, após resolver uma complicada equação matemática que analisa a meteorologia, as dívidas resultantes das despesas no Natal, a queda da motivação e uma crescente pressão para realizar coisas. 

Pois para contrariar a coisa cá vai mais um poema do grande Lobo Antunes, desta vez tornado música numa desgarrada bem frequentada liderada por Vitorino e gravada para o disco "A Canção do Bandido", de 1995. Vamos à pesca?

Ana Almeida



Rigoroso do Pescador da Marginal 

O melhor da minha vida
é estar aqui na muralha
com uma cana estendida
para o negrume do rio
as vigias de um navio
e as ondas de fina talha

Quando chega sexta-feira
despeço-me da mulher
beijo a criança na esteira
ponho um capuz de oleado
e venho para este lado
no barquinho da carreira

Vejo as luzes de Belém
refractadas no alcatrão
milagres que a noite tem
namorados que se beijam
altas árvores que bocejam
e o búzio que as casas são

Oh minha colcha de estrelas
neste mar cor de basalto
minhas loiras caravelas
navios de especiarias
vogando em ondas macias
num céu tão puro e tão alto

Saltam infantes barbudos
das naus que vêm de Almada
grumetes, frades miúdos
com gengivas de escorbuto
donzelas de triste luto
dançam na luz irisada.

Salta El-Rei com seus alões
e as aias da princesa
bobo, jograis e anões
escrivães e cardeais
saltam santas de vitrais
e o cronista à sua mesa

D. João chegou de Diu
D. Pedro de Timor vem
e eu na muralha do rio
a ver os dois enforcados
que os corvos comem em estrados
junto à Torre de Belém

Convosco esqueço o emprego
quando chega sexta-feira
fico surdo fico cego
não ligo à renda da casa
parado a ouvir uma asa
que me voa à cabeceira

Meu rio tão negro e tão fundo
bacia do Mar da Palha
quero lá saber do mundo
quero lá saber do peixe
quem me ama que me deixe
ficar aqui na muralha.

António Lobo Antunes


VEJA O VIDEO SEGUINDO O LINK
http://www.youtube.com/watch?v=uU8onjlVUsE

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