quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

ALA ... que é poesia IV

Há ironias assim. Ia eu toda entusiasmada a começar o ano com a bela compilação diária dos poemas de António Lobo Antunes quando, de repente, não mais que de repente, sucumbo a uma bela bronquite.

Agora, já na fase da recuperação, retomo o ritmo - que não falta poesia de ALA por aí espalhada em canções para aquecer a alma. "Todos os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe" vem mesmo a propósito. Surge interpretada por Vitorino no disco "Eu Que Me Comovo Por Tudo e Por Nada", de 1992.



Todos os Homens São Maricas Quando Estão Com Gripe

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

António Lobo Antunes


PARA VER ESTE VIDEO SIGA O LINK
http://www.youtube.com/watch?v=W85ag_OQesg&feature=share


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