quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

O camisola amarela


Sentou-se, fechou os olhos, esticou os músculos e tendões e, uma a uma, pôs-se a contar todas as dores que sentia no corpo.
O banco do jardim vazio sob uma árvore vazia de folhas, era Outono, quase Inverno, e o sol morno, saboroso.
Ele como uma planta, em fotossíntese, como uma tartaruga, patas e cabeça fora da carapaça, a pele enrugada de réptil, a tartaruga não é um réptil, assim que, como um lagarto, verde cor de musgo e madeira, confundível com o banco do jardim, invisível.
- Sente-se bem? – Ouviu perguntar.
Abriu os olhos e olhou em volta.
A pergunta era para si.
Uma pergunta feita por uma laranja.
Uma cara redonda como uma laranja, um olhar sorridente envolto em sardas, sardinhas quase em movimento, um cabelo cor de abóbora de caracóis redundantes, e mais sardas nos ombros e no decote.
Podia passar o resto do seu dia, talvez da sua vida, a contar-lhe as sardas do decote.
Os seus olhos presos, prisioneiros.
Não consegue evitar não desviar os olhos de objectos ou corpos perfeitos, o que sumamente, laranja em sumo, o irrita.
Incomoda-o padecer dessa qualidade (não pode ser defeito) tão humana, que é a sua irremediável debilidade pela beleza.
E a perfeição, ao caso, uma laranja.
- Para a idade que tenho… – Parou para pensar. Queria dizer qualquer coisa com graça. – …sinto-me como um ciclista! – Respondeu, e continuou a pedalar na resposta. – E não um qualquer ciclista do pelotão, o camisola amarela!
E fez um sorriso amarelo na tentativa de corroborar, de comemorar, a sua recém-adquirida condição de desportista de alta competição.
Tentou imaginar-se um ciclista.
A penas conseguiu ver-se a subir uma montanha, não as duas rodas de uma bicicleta mas as duas rodas de uma cadeira de rodas, não pés a pedalar, mãos, o céu cinzento e num repente chuva. Uma chuva torrencial, inesperada, o céu a desabar, talvez vento, que na sua imaginação chove e venta, e constipações e dores de reumático, que mesmo nos sonhos o sol sem exclusivo. Uma chuva que o deixou com o aspecto frágil e desvalido de um gato molhado, nada apresentável.
Apesar dos seus pensamentos, pareceu-lhe que ela achou graça, ao ciclista, evidentemente!
Fez um sorriso gomo de laranja.
Missão cumprida. – Concluiu. – O camisola amarela até na etapa de montanha cruzou a meta em primeiro.
Fez um sorriso e continuou o seu caminho.
Levou o sorriso consigo.
Deixou-o como estava, lagarto verde cor de musgo e madeira, sentado sozinho num banco de jardim vazio sob uma árvore vazia de folhas.
Assim continuou o que se tinha proposto fazer antes de interrompido por uma laranja: o inventário das dores que sentia.
Contou do corpo doze dores, que à dúzia são mais baratas, pensou.
E, como se gaivotas, curvas de asas em voo, atravessaram, em passo apressado, os seus pensamentos, as ancas de uma vendedora de peixe, de uma varina.
E não as ancas de uma qualquer varina. As ancas concretas de uma mulher ainda menina, quando ele também rapaz moço. Saia rodada sob o avental, canastra, como se coroa de rainha, sem esmeraldas nem rubis, chinela a dançar no pé, voz de rouxinol, gaiola ao sol na marquise.
E cantava!
Há carapau e sardinha linda.
Tenho chicharro lindo, carapau, pescada fina.
Há carapau fresquinho, olha o carapau para o gato.
E ele, havia dias, ciclista a subir a montanha, armado em carapau de corrida, a tudo comprar, a esvaziar-lhe a canastra, a aliviar-lhe o peso do corpo com gosto, a convencer-se a si próprio que apenas por causa das sardinhas, que toda a gente dizia ser peixe de bem fazer ao coração.
Para mais queria que ela, era assim nos seus pensamentos, ao chegar a casa apregoasse que um só cliente, ele o cliente, o camisola amarela, fez o seu dia.
E mais a pensava, a queria, no dia seguinte pelas ruas à sua procura, na expectativa feliz e lucrativa que mais uma vez lhe esvaziasse a canastra.
Com o tempo, ou apenas com a velhice, foi-se acostumando a dar um toque cómico a tudo o que apenas era dramático.
Não dizem que os velhos são tolos?
Pois tolo se deixa pensar!
E mais uma vez continuou a fazer o que se tinha proposto antes de ser interrompido pelos quadris da sua varina.
Chamava-lhe sua. Deixou de chamar-lhe sua.
Contou doze dores.
Como se o seu corpo uma prateleira.
Havia-as arrumadas no mesmo sítio.
Havia-as arrumadas em sítios diferentes.
Quatro das seis que estavam no mesmo sítio eram fáceis de encontrar, porque marcadas por cicatrizes, como se o seu corpo um mapa de piratas e tesouro nenhum, apenas tormentos e cabos no mar.
Uma ferida de bala.
Sim, esteve na guerra, uma guerra quase esquecida à falta de sobreviventes.
Um extirpar do apêndice.
As outras provocadas por acidentes domésticos.
Dois tombos, um aparatoso na juventude, um salto de uma janela de um segundo andar, a janela pertencia a um quarto, o quarto pertencia a uma senhora, a senhora pertencia, supostamente, ao senhor seu marido, e mais não merece a pena contar! E pena nenhuma, tivesse a mesma idade que voltaria a saltar do mesmo segundo andar.
Outro num degrau de escadas da velhice, uma queda sem um pingo de poesia que lhe fracturou a bacia.
Das dores sem lugar no corpo não sabe o que dizer.
Diz que não tem vocação para mineiro.
Para as dores maiores injecções, comprimidos e saquetas que, percebe, arranjam umas e lhe desarranjam as outras, o seu corpo lembra uma balança de ourives.
Depois, a irremediável dor no coração.
Dor nenhuma, que o coração não se queixa!
Uma dor antiga, do tempo em que rapaz moço, que começou no dia em que a sua varina, não saia rodada sob o avental, não chinela no pé, não canastra à cabeça, vestido branco de seda, sapatos de salto e verniz, grinalda de brilhantes e véu de tule, de braço dado com o dono da sapataria, que por acaso ou coincidência era à data o seu patrão, um sovina que, aposta e não perde a aposta, nunca cometeu a extravagância de lhe esvaziar a canastra.
E conclui, contadas do corpo as dores, que são muitos os dias em que se sente bem, porque não sente nada, apenas o sol, morno, saboroso.

Raquel Serejo Martins



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