quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Eis o fanzine Flanzine

Eis o fanzine Flanzine, um “hino ao Facebook”

O pudim Flanzine nasceu no Facebook e por lá continua. Para ver de três em três meses
Texto de Amanda Ribeiro • 09/10/2013 - 15:03

A Flanzine, diz quem a fez, tinha “tudo para correr mal”. Contra ventos e marés, contra “as leis de Murphy e Keynes”, a revista nasceu, da Internet para o papel, para não se “perder num enorme universo de lixo virtual”. Um “percurso inverso” que, lá no fundo, significa uma coisa: “Um hino ao Facebook.”

A começar pela parentalidade, como nos conta João Pedro Azul (na foto), um dos encarregados de educação, a partilhar a custódia com Luís Olival, autêntico “rei do Facebook”, natural de Mangualde. Os dois conheceram-se via Zuckerberg há uns anos — e assim se têm mantido. É que a Flanzine materializou-se sem os ideólogos alguma vez se terem conhecido pessoalmente. A mesma receita para muitos dos colaboradores — o primeiro número conta com nomes como Álvaro Silveira, Cláudia Lucas Chéu, Rogério Nuno Costa, Vicente Alves do Ó, Vítor Rua, Susana Moreira Marques e Raquel Ribeiro (jornalistas/colaboradoras do PÚBLICO).

Com formação em teatro, João passa hoje grande parte da semana atrás de uma banca que vende queijos e outras iguarias no Mercado do Bom Sucesso, no Porto. Assume-se como um “facebookiano” convicto. Vê a rede social como uma “ferramenta criativa”, uma “montra” para as suas ideias. E tem encontrado outros como ele. Foi ao observar esta rede de contactos que decidiu lançar um desafio a Luís Olival: “E se entre os nossos amigos do Facebook criássemos um fanzine?”

Assim foi. Em Setembro, graças ao reembolso de IRS de João Pedro, o fanzine Flanzine (não se nota que o passatempo preferido dele é “brincar com as palavras”, pois não?) ganhou corpo. “Raramente utilizámos o e-mail. Houve até quem nos entregasse os trabalhos pelo Facebook.” Os textos e as ilustrações versam sobre um tema: Mala. Uma resposta ao “incentivo à emigração por parte do primeiro-ministro e da corja”. Em Dezembro, sai a segunda com um “tema natalício”: o Medo. Não é preciso dizer que o humor negro é ma marca de água. Entram novos colaboradores (como Valério Romão e Filipe Homem Fonseca), mantêm-se outros (Vítor Rua vai ser publicado em fascículos porque João não indicou, a princípio, uma limitação de caracteres), promete-se mais diversidade, por exemplo, com a publicação de fotografias. Toda a gente pode tentar participar — a selecção está a cargo da gerência.

Entretanto, o pudim vai correndo o país. Foi apresentada no Circular em Vila do Conde, terra-natal de João Pedro, onde alguns dos colaboradores se conheceram. Idem, idem, aspas, aspas para Lisboa, onde a revista foi apresentada na passada sexta-feira na livraria XYZ. Para já, não se registou qualquer “aparição” de Luís Olival, qual D. Sebastião de Mangualde. Noutro dia, a Flanzine foi parar às mãos de Vasca Graça Moura. João Pedro avistou-o ao longe e correu no seu encalço. “Ele agradeceu e apresentou-me a pessoa que estava ao lado: o professor Nuno Júdice.” Feedback? Não houve. “Se calhar, não tem Facebook...”

*Jornal Público: http://p3.publico.pt/cultura/livros/9508/eis-o-fanzine-flanzine-um-hino-ao-facebook


O fanzine doce

Mas ao contrário dos fanzines em papel, onde as diferentes ideias chocavam e deflagravam nas suas capas, na web as ideias ficam muitas vezes sós e esquecidas, ou então vão sendo lentamente empurradas para o fundo da página, do ecrã, e da consciência
Texto de Jorge Palinhos • 23/12/2013 - 10:36Share on facebooShare on emMore Sharing 

Diz que é o número dois de Dezembro de 2013, a capa do exemplar do "Flan Zine" que tenho nas mãos, e que o seu tema é o medo. É uma publicação pequena, em formato A5, de uma impressão cuidada num papel de qualidade, com um design sóbrio, quase todo a preto e branco, exceto nas páginas centrais, cujas fotos e ilustrações rebentam em cor. Na ficha técnica diz que é uma "Receita de João Pedro Azul e Luís Olival", com edição de João Pedro Azul, e a sua lista de colaboradores e temas é eclética, com nomes conhecidos e desconhecidos da ficção, da poesia, do teatro, do ensaio, da ilustração e da fotografia.

Talvez não seja totalmente diferente das páginas literárias e de arte que povoam hoje a web, mas a impressão, o formato, a ironia, levaram-me para a memórias dos fanzines dos anos 70 e 80, que emergiram no fluxo das novas tecnologias de impressão, mais baratas e acessíveis, que faziam crer que qualquer um podia espalhar as suas ideias ao mundo.

E durante algum tempo tentou-se. Para todas as áreas — na música alternativa, na BD, no esoterismo, na poesia, na filosofia, na política, na ficção de género — havia gente a escrever e a publicar notícias, ideias, boatos e delírios, em fanzines que se empilhavam em bares e lojas para comprar e levar.

Eram publicações mal impressas, mal paginadas, com gralhas e ilustrações borratadas, fixadas em papel mau, mas que fervilhavam de entusiasmo e de urgência. E os seus autores viviam para as fazer, para colaborar nelas ou para as trocar. Eram espaços de liberdade e partilha. Depois veio a internet e surgiram os blogues, os sítios e as webzines que as substituíram. Eram mais fáceis, mais baratos e supostamente mais universais. Mas, num meio virtual, tornou-se mais difícil acreditar na real existência e compromisso que implica um fanzine em papel como o "Flan Zine".

Um dia, no meio da febre dos fanzines, um amigo contou-me que tinha sonhado que todas as pessoas do mundo estavam na rua a trocar papéis — fanzines — entre si. Esse sonho tornou-se hoje realidade no Twitter, no Facebook e noutras redes sociais, onde cada pessoa é um distribuidor ou redistribuidor de informações e ideias. Mas ao contrário dos fanzines em papel, onde as diferentes ideias chocavam e deflagravam nas suas capas, na web as ideias ficam muitas vezes sós e esquecidas, ou então vão sendo lentamente empurradas para o fundo da página, do ecrã, e da consciência.

*Acompanhe a página da Flanzine no Facebook. 

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