quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

É do borogodó: das cerejas aos prazeres

Nunca havia pensado na possibilidade de usar o elétrico para transporte, em meio aos cliques e arigatôs que se misturavam aos dankes e outras coisas dos turistas que por ali andavam. Mas não era pra já que ele tinha algo mais o que fazer, então, se deu ao desfrute de inverter a ordem lógica de seu pensamento cotidiano para andar a fazer coisas nunca antes experimentadas, quer por preconceito, quer por falta de disponibilidade emocional p’aquilo.

Tinha um ar marinho acima de tudo, o rosto redesenhado pelo tempo, os cabelos grisalhos bem cortados que acompanham a barba serrada. O casaco de lã, embora pesado e em tom profundo de azul, não conseguia esconder a imensidão daqueles ombros e a longitude dos braços que lhe compunham a rústica delicadeza de um senhor do trabalho duro.
Ingressou no transporte um tanto tímido, felizmente pôs-se sentado ao fundo no vazio que beneficiava o acaso.


Ela já estava lá. Um banco a frente, na outra fila. Uma saia encarnada lhe vestia as pernas, e por cima, aquilo que deveria ser uma espécie de suéter não fosse o caimento mais do que despojado, prestes a fazer nascer dali um novo vestido. Os cabelos longos e loiros, soltos sobre o rosto escondiam os olhos e o resto.
Observou primeiros os pés mantidos em pontas para tocar o chão. Aquilo era tão curioso quanto improvável para se sentir bem e relaxado, pois não há gente que se disponha a relaxar em pontas de pés, nem que elas venham enquanto se está sentado.
As pernas se dispunham ondas, os quadris se viam fartos e entre os tais uma praia recôndita, da qual se procriavam chamamentos. Um saco de cerejas desenhava a satisfação da menina e lhe conferia um status de pintura impressionista.
Os dedos longos se metiam no saco de papel branco e enlaçavam aquela que parecia única pela voracidade do apetite e interesse pelo sabor.
Entre as mechas dos cabelos ele avistava a boca lascando a fruta até lhe reter o caroço entre os dentes. Depois o caroço ao saco e o talinho que não lhe importava remexer entre os dedos antes da próxima cereja.

Apaixonou-se como não deveria; já lhe percebia o hálito de cereja exalando pelos poros e os olhos a faiscar açúcares enquanto lhe dissesse seu nome.
Tão menina, tão delgada, o corpo todo vibrante no correr da viagem no tilintar do bonde, desde os pequenos passos à alta estrela.
O sol lhe derramava ainda mais brilho e os cabelos soltos, frescos de banho – o que se podia notar, do volume ao perfume eram voluptuosamente bem dispostos como moldura àquele rosto de anjo que fatalmente devorava a vida daquelas frutas.
Desejou morder sua boca e deslizar as mãos por sobre o desmembrado suéter branco aonde lhe apontavam os seios firmes. Desejou apanhar naquela cintura e pintar nela uma santa ceia de verbos com movimentos lentos, mesmo lentos, típicos de quem compreende o tempo e se torna dele fiel depositário.

Sentiu em si o romper do barco agitado, uma convulsão de quimeras, a espuma das ondas dos dias em que lhe cabiam tão bem esperanças. Já não tardava chegar, então não quis evitar os outros olhares abusivos sobre a menina e no meio das tantas, sem mais cerejas, teve dela um sorriso com o saco de papel amarrotado, recheado de caroços.
- E já não resta mais nada.
Disse ela para ele ou para o ar, não se sabia, e a voz que lhe saía do peito era da mesma cor avermelhada da saia e no mesmo macio veludo de cereja e havia o mesmo fio desfiado, alongado, branco nuvem do suéter que lhe aquecia o colo.
Na parada final ela desceu com agilidade, sacou a mala e logo já era vista ao longe no parque, longe demais para que lhe entrassem pelos ouvidos as palavras dele:
- Todo homem tem o direito de sonhar.

Penélope Martins

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