sábado, 7 de dezembro de 2013

À atenção do Rio de Janeiro - Evandro von Sydow lança livro

Assim como, creio, o filme de animação australiano Mary & Max foi o primeiro a “tematizar” diretamente a Síndrome de Asperger, digo, com alguma pretensão, que o despretensioso livrinho de poemas Limeriques para o Dante é o primeiro livro de poesias para crianças e adultos escrito no Ingá que “tematiza” a síndrome de West.

O livro é, de certo modo, uma biografia nada ortodoxa e sobretudo não-autorizada do Dante.

Dante é um lindo que em 19/12/2013 completa 5 anos. Aos 4 meses de idade, foi diagnosticado com síndrome de West. Hoje acho que o que ele tem é autismo mesmo, decorrente da SW.

O dia com uma criança com SW tem lá seus momentos de pânico (dá uma olhada nos limeriques 1,5, 10, 16), mas conviver com o Dante é uma alegria maior do que eu esperava poder sentir. Produz perplexidades, canseiras, sorrisos, amor infinito. E, de quebra, limeriques.

O lançamento de Limeriques para o Dante será na Livraria Al-Farabi no dia 10 de dezembro, das 18 às 22 horas. Outro livro estará sendo lançado, oSonetos para Pampinea.

*Evandro von Sydow

~~...~~

se somos bichos que sejamos baixos
como os bichos da terra tão pequenos
baixezas não sonhadas neste maio
que nos faz grandes quando somos menos
humanos :: quando despidos de todos
cálculos raciocínios e ensaios
somos apenas toque e língua e cheiro
depois de amar na tarde escancarada
seu sexo escancarado sobre nós
espiar da janela deste oitavo andar
a rubra morte das espatodeias
possam elas então nos amparar
no sol das erosões no sal na carne
afinal
       nunca soubemos
                            pousar

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o corpo adota gestos vagarosos
quando deita-se ao lado de quem ama
o corpo anárquico se faz devoto
e repete suas falas levianas
na esperança quem sabe de reter
o que é porto o que é delta o que é chama
tudo aquilo que o faz se derreter
tudo aquilo que o brinca de criança
pois desconhece o corpo os seus limites
assassinando aquilo que o cinge
o corpo se ata ao corpo amado como
a pedra aos pés dos suicidas
assim (tchau mundo) o corpo se deixa ir
e o resto é papo para boi dormir

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beijar teus seios como se em queda
o tempo exíguo para a exatidão
que não esteja errado a ponto de
me afastares a cabeça pro lado
e que não seja certo a ponto do
suspiro que acompanha o saciar
beijar teus seios como se em queda
essa queda dos sonhos :: só não quero
acordar : deixa eu ficar vagabundo
nada mais a fazer nesta manhã
senão beijar estes mocinhos graves
que impenetráveis me contemplam graves
nada a fazer :: beijá-los e beijá-los
lábios e língua silentes vassalos

Alguns limeriques: 

Menino mais guapito do Ingá.
Eu me pergunto mesmo se haverá
outro tão belo no mundo.
Não sei. Medito profundo.
Só o sábio de Sabará saberá.

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Talvez se morássemos no Peru
tudo mais fácil, sem tanto rebu.
Mas que ideia mais avessa
nem passa pela cabeça
ir com ele pra esse tal de Peru.

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Talvez se nós morássemos na Grécia
Tudo fácil, sem tanta peripécia.
Mas que ideia mais ridícula
Não se aproveita partícula.
Levar o meu deusinho para a Grécia.

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Era sábado o pai bem que tentou
introduzi-lo ao mundo roquenrol:
Beatles Pink Floyd e The Who
Camel Rush e Jethro Tull
Depois de ouvir direitinho, falou:
Essa música é muito bonitinha
Guitarra bateria e flautinha
Mas então aqui em casa
Ou lá na Faixa de Gaza
Não rola mais Galinha Pintadinha?

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O moleque e eu temos coleção
de histórias em mil línguas :: alemão
provençal croata galês
húngaro hindi e chinês.
Se entendemos? Ora, com o coração!

Só para terminar. Alguns limeriques têm ilustrações. As do meu livro foram feitas por um amigo-colega e por alunas de 14, 15 anos.

Segue um exemplo.

O meu pequeno menino matreiro
a pouco e pouco me ocupa inteiro.
Faz da mente o seu lugar
do coração o seu lar
e da barriga faz seu travesseiro.

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