sábado, 30 de novembro de 2013

Pretérito Perfeito na Pó dos Livros


A week ago, Sábado dia 23 de Novembro, um Sábado frio (apontamento meteorológico para memória futura), a escritora Patricia Reis apresentou o livro Pretérito Perfeito, o meu livro (os meus problemas com pronomes possessivos) e, entre improviso e improviso, as palavras escritas, a escritora, o texto de apresentação.

Um exclusivo Clube de Leitores:
Patrícia Reis sobre Pretérito Perfeito.


Nos momentos mais estranhos.
Nos dias mais negros.
Tenho por hábito pensar e dizer alto e bom som: “vais morrer. Onde - e com quem? - queres desperdiçar as tuas energias?”

A morte é algo que se aproxima de nós com a idade e, atenção, não com a doença e respectiva traição do corpo. Não. Há um tempo em que comemoramos casamentos e nascimentos e, mais tarde, começamos a enterrar pessoas que amamos, que conhecemos uma vida inteira. Estas pessoas podem ser amigos ou família ou apenas alguém que admiramos. Ainda hoje me recordo do olhar triste do meu filho mais velho quando James Brown morreu, ou da voz quebrada do mais novo por ter de se despedir de Lou Reed.
O que tem tudo isto a ver com Pretérito Perfeito de Raquel Serejo Martins? Tudo e nada.
O livro da Raquel é a página em branco de alguém – Vasco - que sabe que vai morrer. Ciente de que a morte é um jogo impossível de viver, escreve um diário, enumera afectos e receios, uma lista de impossibilidades. Tanto para fazer, tanto para ver.
Nada está ao alcance do personagem. Assim, podemos dizer que o livro de Raquel Serejo Martins é sobre essa coisa extraordinária que nos atormenta: a identidade.
Quem somos?
O que fizemos? O que nos levou a fazer A em vez de B?
Seria diferente se...
Tantos “ses” que cabe um cachalote numa caixa de fósforos.
Escrever para lá desse lugar de silêncio e brancura as palavras podiam faltar, podiam falhar, mas pela mão da autora vamos, seguros, pela vida de alguém cuja vida termina daqui a nada.
O mais difícil?
Encontrar uma narrativa que tenha este poder de atracção, incapaz de nos deixar indiferentes. Mérito da Raquel, mas não só.
Acredito, na minha anormalidade enquanto leitora de outros, que os personagens estão vivos, têm osso e alma, coração e vontade própria. Sei que quando escrevo, as personagens permanecem num parque de entretenimento privado que é o cérebro do autor e, mesmo que se queira, não é possível escapar aos seus desejos.
O personagem principal deste Pretérito Perfeito, conjuga os últimos momentos de vida – de 8 de Outubro de 2007 a 11 de Janeiro de 2008  - mexendo com todas as cordas que temos dentro de nós, obrigando-nos a uma reflexão e eu volto à tal frase: “vais morrer, onde - e com quem? - queres desperdiçar as tuas energias?”
Todas as histórias que incomodam – a grande Agustina Bessa-Luís disse uma vez que escrevia para incomodar e eu aprecio esta ideia em especial -, todas as ficções que são perturbadoras, mas onde facilmente nos encontramos, estamos dentro desse mundo, precisam da mestria de quem as escreve. Neste caso, a Raquel é um homem do leme com perspicácia, tristeza e amor. Não nos engana.
Sabe ao que vamos e ela leva-nos pela mão para dentro da história, ou por este diário de fim de vida, até que não haja mais força para dizer ao mundo seja o que for.
Escrever.
Tememos a vertigem de pensar que é o acto mais íntimo e violento que existe, pelo que exige de nós. Exige coragem, liberdade. Exige, acima de tudo, honestidade. Honra. Valores velhos aos quais raramente conseguimos aceder por completo. A aceleração em que nos comprometemos agora é uma forma de contornar o pedestal destes valores, de prescindir em definitivo dos mesmos. Comunicamos muito para dizer muito pouco. Servimo-nos das palavras como biombos, não como fósforos frágeis que iluminam a  nudez do que somos.
Vergílio Ferreira escreveu: um romance é um biombo atrás do qual a gente se despe.
Todas as palavras mentem num determinado momento. Às vezes porque simplesmente não estamos prontos para atingir a sua verdade: esbarramos nelas e não as vemos. Como nos acontece com as pessoas, a começar por nós próprios.
Raquel Serejo Martins escreve porque as palavras nunca são insuficientes, mostram tudo o que se possa saber, pensar ou sentir sobre as coisas.  Mas não mostram tudo. E é essa ideia – esconder algumas coisas – que faz com que o livro, este novo livro, seja uma dança sem um ritmo certo, vamos andando ou apenas observando os pares que estão em sintonia e a solidão que, mesmo quando não se quer, é feita de pequenos nadas e equívocos. Poderá um milagre salvar-nos? Salvar o pretérito perfeito da Raquel para algo mais mundano? Mais imperfeito? Não.
A impossibilidade de um diagnóstico traz-nos essa imagem terrível da traição do corpo. E o diário avança. O livro cheira a medo. A esperança, a ideias que ficaram por dizer. Mas, em especial, podemos dizer que transpira vida, uma vida que se desfaz dia a dia. E há mais: a cada página há um crescimento de tormento que a escrita da Raquel nos traz.
Ora, nenhum escritor pode reclamar-se virgem depois de um livro desta natureza. A autora foi invadida pela doença terrível da escrita, esse vírus que se instala e que, em alguns, é um vírus forte, com uma voz própria. Não é um sucedâneo de todos os autores que amamos na vida.
Raquel Serejo Martins tem um futuro na escrita? Essa não é a pergunta certa. A pergunta é: que mais histórias é que a autora tem para partilhar connosco? E se optar por não partilhar, será capaz de abandonar a escrita? Duvido. E ainda bem.
Muitas vezes podemos pensar que há livros em quantidades absurdas e que, como escreveu Eugénio de Andrade, as “palavras estão gastas”. Nada mais errado, desde que o Homem é Homem, as histórias são um vício, por razões distintas, mas indissociáveis da condição humana.
Como escreveu uma vez Inês Pedrosa: “basta que as palavras tragam dentro a verdade”. E acrescentou: “ A verdade existe – é difícil extraí-la do silêncio em que está presa pelo ruído das opiniões, das bombas, da burocracia, do quotidiano, da vaidade ou do medo. Muito difícil – mas, por isso mesmo, absolutamente necessário”.
Pretérito Perfeito está repleto de verdades, várias e distintas, umas estão à vista, outras escondidas. É preciso ser forte para reconhecer e enfrentar a imortalidade. O mesmo é válido para este enorme risco que é escrever, publicar, colocar o nome na capa, ter amigos e família em expectativa, o coração a bater mais forte por não se saber se as palavras que reunimos na história que se escreve, são suficientes. Importa não esquecer essa dimensão de risco que todas as publicações acarretam, como um saco de pedras extra que, no caso das mulheres, é reforçado em peso e tamanho por razões que a História explica. Raquel Serejo Martins, aparentemente uma gladiadora da escrita, sem medos, atira-se de cabeça para uma história que não é fácil de contar e ela fá-lo de forma extraordinária, tão extraordinária que até parece simples. Nada na escrita é simples. Na vida tão-pouco. E na morte? Não sabemos, pois não? Convém é saber onde e com quem queremos desperdiçar as nossas energias.
Obrigada Raquel, por este livro, por seres quem és.


E assim nós, no fim.
Sem mais palavras.
Apenas obrigada.

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