domingo, 3 de novembro de 2013

In Elogio da Madrasta


Na intimidade cúmplice das escadas, enquanto regressava ao quarto, dona Lucrécia sentiu que ardia dos pés à cabeça. «Mas não é de febre», disse para si aturdida. Era possível que a carícia inconsciente de um menino a pusesse assim? Estás a ficar uma viciosa, mulher. Seria o primeiro sintoma de envelhecimento? Porque a verdade é que estava em chamas e tinha as pernas molhadas. Que vergonha, Lucrécia, que vergonha! E, de repente, passou-lhe pela cabeça a recordação de uma amiga licenciosa que, num chá destinado a recolher fundos para a Cruz Vermelha, tinha provocado rubores e risinhos nervosos na sua mesa ao contar-lhe que, a ela, dormir sestas despida com um afilhadito de poucos anos que lhe coçava as costas, a inflamava como uma tocha.

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