quinta-feira, 28 de novembro de 2013

É do borogodó: pão com manteiga

Os fios prateados compunham estrelas no chão. Narciso deitara ali mesmo, saciado de amor, fervido carnavalesco. Dolores sentada ao pé da cama retirara da bolsa a carteira de cigarros.
- Você fuma?
- Tu num sabe nada de mim, mas eu num fumo não, já fumei, hoje passeio no cigarro vez por outra pra relaxar.
Narciso soltou riso desconcertado, como uma criança diante dos seios vigorosos da mãe, ou mesmo um pecador ajoelhado pagando sua derradeira penitência.

fotopoema – luzes – de Penélope Martins
Narciso era aquele homem de corpo imenso portando aquela sempre delicada alma transbordante em cetim macio e fios de prata. Deixou-se amarrotar por Dolores.
Dolores era o estandarte, as pernas musculosas da mulata que se apresentavam escondidas na máscara de meias arrastão. Dolores ereta e obscura, uma ave tensa de canto grave, triste; os olhos maquilados de rímel barato insistiam tingir a face além dos cílios.

- Tem fome?
- Talvez. Respondeu ela, evasiva de puro orgulho.
- Vou arranjar alguma coisa.
Dolores apanhou os cabelos com as mãos e arrumou um penteado com eles deixando o pescoço a mostra. Ainda sentada na cama, vestida com sua nudez, brincava com os raios de sol que atravessavam as frestas da janela. Narciso teimou com seu desejo se vestindo as calças do pierrot para apanhar algo na rua que pudesse servir de amparo à fome de sua rainha.
- Espera aqui, formosa.
- Não espero, não (gargalhou) vou sair assim mesmo nas ruas, a louca nua.

E foi nesta gota de ironia a primeira fisgada no peito que sentiu Narciso. O doce desfeito, a agonia das horas, o desespero dos dias, as trevas que esconderiam o amor que nele crescia sem freios.
O apartamento de Dolores era um cômodo vazio. Um cômodo vazio não compunha os sonhos de Dolores.
Narciso virou a chave na porta, desceu as escadas com pés descalços, pediu café e pão na chapa, pagou a fatura e subiu de volta, virou a chave na porta com o coração palpitante, as horas escorrendo sem que ele nada pudesse fazer.

Dolores vestia um robe branco de algodão com algumas florinhas que quase faziam crer esperança.
- Linda.
- O que você trouxe, aí?
- Café e pão com manteiga na chapa.
- Nossa, um banquete – disse ela, em desdém pela própria vida.
- Por que tanta amargura, Dolores? Num foi boa nossa noite?
- Oh meu querido, foi a melhor.
Disse isso e sentou no colo de Narciso, entre um gole de café e um beijo amanhecido, tocou a face dele com as costas da mão, depois envolveu o rosto do homem entre seus ombros naquele receptáculo de deleite e aflição que lhe chamavam colo.

E então pierrot levantou sua amada, novo golpe de abraço naqueles quadris, levou-a até a cama, mordeu coxas, apertou nádegas, envolveu peitos com beijos enlouquecidos e fez rasgar gemidos agudos que se soavam chamados.
Embrenhou-se nela, debochando do tempo e do fim do jogo, fez o revirar dos olhos dela em investidas ritmadas, um samba com mais linda poesia até o ponto alto, acorde de um gozo satisfeito.
- Toma, Dolores, teu banquete que não é só pão com manteiga. Toma aqui, mulher gostosa, sente dor de tanto prazer porque eu também sei fazer tua agonia…

Deram-se pelo domingo vadiando cama, ducha, cozinha e o chão fagulhado de purpurina, fios de prata e sonhos desfeitos.
Narciso sabia do pouco, o muito que lhe convinha.
Dolores não tinha nenhum espaço em silêncio, apenas a falta latejante esperneando e ruindo suas paredes.
Narciso era pobre demais.
Dolores era infeliz.

Penélope Martins
*Em conexão com o blog: http://todahoratemhistoria.wordpress.com

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