quinta-feira, 21 de novembro de 2013

É do borogodó: o doce perfeito, goiabada com queijo

Narciso já tinha feito o trabalho da semana para passar o sábado terminando os detalhes da sua fantasia. Embora fosse um homem de corpo propício aos trabalhos mais árduos, Narciso abrigava uma alma delicada que transbordava naquele fio de prata.
- Eita, menino, deixa que eu memo faço esse serviço pra ti.
- Carece não, mãe… O que foi? Tá achando mesmo engraçado seu único filho macho cosendo uma fantasia de carnaval?

A mãe sorrindo deixou o terreiro e foi para dentro da casa.
Narciso foi para o baile com seus amigos de bairro. Havia uma intimidade de confraria, cresceram juntos e todo ano atravessavam aquelas ruas no cantarolar das marchinhas. Já na porta do salão, erguida num par de sandálias prateadas somente meias de seda e collant negro salpicado por pobres lantejoulas, Maria Dolores arrancou-lhes a última estrofe da marcha. Um gole seco que sem disfarçar perdia os olhos nos pés, nas coxas, nos seios, na boca e na bunda daquela morena.
Irretocável.

Os cabelos longos e cacheados caiam pelas costas estreitas, do lado esquerdo da cabeça um arranjo de flores fazia par com o brilho das sandálias prateadas. Os brincos de argola já pareciam gastos, mas a boca carnuda desenhada em batom vermelho compensava a miséria do metal. Os olhos negros contornados com traço de kajal e muito rímel olharam diretamente para os olhos de Narciso.
- Nego, parece que você se deu bem.
- Parem com isso…

Os garotos passaram pela porta e acenaram para ela, mas Narciso se dirigiu à moça:
- Não vai entrar?
- Depende.
- Depende? Do que?
- Você vai entrar?
- Depende.
Os dois sorriram desajeitados e entraram juntos na folia de sábado.
Seguiram bandeira branca e abre-alas sem que os dois se desgrudassem.
Os beijos de Narciso acabaram marcando o rosto de Dolores com um pequeno losango.
- Assim você fica minha columbina.
- Assim você me veste com sua melhor fantasia.
Saíram lá pelas tantas, enlaçados da cabeça aos pés.

Dolores virou a chave na porta e largou ali mesmo suas sandálias, enquanto apoiada no peito de Narciso ergueu-lhe a camisa de cetim azul claro. Ao tempo de fechar a porta, os dois já estavam vestidos com os restos dos confetes que se grudaram ao suor do carnaval. Narciso era tão teso por Dolores que quase lhe faltava o ar, mas teve tempo de afastar o corpo da morena perto da luz do dia que adentrava pelas frestas da varanda.
- Linda. Nunca vi mulher tão linda, minha columbina.
- Então venha se deitar comigo, Narciso, porque meu corpo inteiro chama por você.
E então pierrot levantou sua amada num golpe de abraço por sobre seus quadris, esfregando seu corpo forte entre as pernas que o enlaçavam.

E assim se deram pela madrugada do domingo e todo o dia, também na segunda esquecida, e na terça-feira de feriado a manhã tinha gosto de saudade do carnaval.
Narciso coava o café e preparava a mesa para servir Dolores.
- Goiabada com queijo, minha preta, somos assim eu e você.
Mordeu o doce e deu um pedaço para ela que sorriu agradecendo.
- Amanhã entrego o apartamento para o senhorio.
- Você vai se mudar? Aqui perto?
Um gole de café.
- Não, vou para Londres.
- Como assim, Londres? Vais trabalhar lá? Desiste logo disso, agora que…
- Vou me casar, Narciso.
- Casar? Você não me disse nada sobre noivado e casamento.
- Mas é isso mesmo, vou me casar com um gringo.
Os olhos de Narciso encararam firmemente o pequeno caco que faltava no chão da cozinha. A cera vermelha do piso estava opaca, totalmente sem brilho.

- Era carnaval, querido, passamos dias felizes de folia como havia de ser.
- Para mim foi mais do que isso, Dolores, para mim foi o despertar, foi a vida surgindo.
- Hei, você tirou no primeiro dia a fantasia de pierrot apaixonado, vê se para com isso.
Narciso calou na boca no seu último pedaço de goiabada com queijo.
- Vou ficar com o gosto do doce na minha boca, Dolores. A vida da gente juntos poderia ser essa combinação mais que perfeita. Não haveria do que se queixar.
- Não se vive de goiabada e queijo, Narciso, nem vestimos nossas fantasias de carnaval para sair à luta.
- Ele vai dar uma condição de vida melhor que isso?
- Sim, ele tem grana e é gentil comigo. Ele me quer bem.
- E os sonhos, Dolores? E o amor? O que você vai sonhar quando estiver rodeada de dinheiro e sem amor?

- Vou sonhar coisa que sonha gente que tem dinheiro e não tem amor, Narciso, e vou me acostumar com isso.
- E vai bastar?
- Vai bastar não ter que correr atrás da lotação, nem dormir num pulgueiro, nem contar as moedas para salvar um almoço miserável. Isso tudo vai bastar.
Narciso beijou Dolores um beijo agridoce, cristais de sal e açúcar, os olhos rasos deixaram correr um pingente que lhe consagrou a fantasia cerzida por suas próprias mãos.

Penélope Martins

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