quinta-feira, 7 de novembro de 2013

É do borogodó: fubá mimoso

O olhar dispara para fora da janela procurando alguma saída para os dias cinzentos, a falta dos cinzeiros e a civilidade mórbida que incomoda acima de tudo. Pequenas pombas numa revoada entoam uma cantiga da infância ao redor da fonte, na praça central. “Seria perfeito encontrar com ela exatamente no instante em que acontece a revoada”, lembro que pensei isso e logo percebi o email na caixa de entrada:

“Já se passaram dez longos meses desde nossa primeira conversa e decidi surpreendê-lo da mesma forma como a vida nos surpreendeu com nosso raro encontro.”

Sorrio contendo a empolgação dentro do paletó, passeei o olhar ao redor e fingi prazos esquecidos para protocolos e documentos na agenda. A camisa azul celeste refletia minha meninice junto de um leve aroma cítrico do perfume enviado por ela. A gravata aos poucos cedia na alegria, “Ela é maluca mesmo e deve estar vindo para cá dia desses”.

Respondi prontamente a mensagem dizendo que o meu sim sempre estava explícito para nosso encontro. Todos os dias o trânsito fecundo de imagens e palavras inundavam nossas almas de uma esperança prismática, pueril até. Mas nos reservamos no sigilo das vozes nunca ouvidas, nas simplicidades das cartas sem abusos tecnológicos de câmeras, microfones e mais.

Amávamo-nos silenciosamente sem saber quem éramos e tão entregues a mais pura verdade que nos constituía. Fechei os olhos para ver os olhos dela de perto, latejando dentro de mim. Excitei-me com a primeira palavra, o hálito que viria dos lábios rosados e o frio da pontinha do nariz. Olhei para minhas mãos e senti a proximidade da revelação.

Outra mensagem seguiu, desta vez no telemóvel, “encanta-me azul azulejo. pedras negras e um passo para alcançar as mãos que usurparam minha alma”. Tremi deslizando a cadeira para trás. Levantei-me imediatamente e busquei pelos mínimos pertences:

- Tenho de sair para uma reunião e não regresso mais ao escritório. Até segunda-feira!
Avisei a secretária e sai carregando alguns pertences que despistassem meus colegas de trabalho da minha sina. Ela estava ali, próxima de mim, tão próxima que eu já podia enxergar seus passos deslizando sobre a calçada num par de sapatos vermelhos, o desejo lhe acendia a ponta da saia. Profundo conhecedor da minha cidade, acendia as luzes do nosso encontro às escuras tateando as mensagens no telefone, respondi que ela ficasse por lá, que não saísse daquele lugar, eu a encontraria.
Avistei os braços abertos e o corpo nu da musa e quase pude perceber o paladar das folhas de alecrim da minha rua. Caminhei desajustado e lento, trôpego de saudade e mortificado pela paixão. Queria mostrar as coisas do lugar e andar de mãos dadas com ela por ruas estreitas, sob janelas que espreitam segredos, e desfiar conversas com deliciosas chávenas de café na Brasileira.

Uma nova mensagem me deliciava com a promessa perfumada de grãos de cidreira. Na sua mineirice, palavras em diminutivo escondiam tantos segredos quantos fossem necessários: “mimarei você com um bocadinho de compota de goiaba e bolo de fubá mimoso”. Mas das suas receitas me interessavam apenas o que lhe fazia ser tão assustadoramente perfeita para mim.

O coração alardeava. Madalena e meu último suspiro antes de me entregar na curva da travessa da amada, já inúmeros seriam meus abraços ao redor da sua cintura. E mesmo no ceticismo louvei ao santo que proclamasse para nós os melhores votos.

Subi os degraus e avistei seus ombros cobertos com um xale branco. Devagar ela se voltou para a porta e foi erguendo o corpo com gestos mansos enquanto pronunciava um sorriso para dizer meu nome. Mas não disse. Parou na primeira letra e esperou, tal o monumento erigido ao escriba, com os braços suavemente abertos, os seios rijos enfeitados por pérolas que deslizavam no colo, os lábios úmidos.

Ouviu-se a revoada e meus braços enlaçaram a cintura estreita. Murmurei as primeiras palavras dentro da concha do ouvido dela “eis-me, minha adorada”, para seguir num beijo sobre a pele doce do pescoço. Seda, bruma, pêssego, gotas de óleo essencial e uma nota de cidreira para adoçar o sabor do mimo.

Beijou-me demoradamente um beijo pagão nos bancos da igreja. Todos os arcos se expandiram e o céu invadiu celeste até se fundir com as tramas de algodão da minha camisa, caminhando fragmentos de nuvens dentro do peito.

“Deito-me em ti, meu amor.”

Penélope Martins

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