quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ainda o "Negrume" de Sandra Martins

Foto de Pedro Ferreira

O prefácio não pariu a tempo...Era para ontem e, por isso, não figura o livro. Mas, ainda assim, o professor José Augusto Graça (na fotografia) escreveu umas palavras para Sandra Martins guardar eternamente. Palavras generosas, humildes e belas. Palavras que soaram, de surpresa, no lançamento de 'Negrume'.

SOBRE “NEGRUME”

1/ Há livros que melhor seria nunca terem chegado à letra de forma, ao prelo, ao escaparate da livraria e, por fim, às mãos do incauto leitor, induzido em erro, sabe-se lá, por um título enganador ou por um prefácio que nunca leu o livro que prefacia, mas que adora prefaciar. É voz corrente que se lê cada vez menos, enquanto se publica cada vez mais. Que se leia cada vez menos, é perfeitamente natural, na medida em que o caderno de encargos em que se tornou a nossa vida, constitui-se numa empreitada sem fim. Quem não se mostra minimamente sensível a esta interminável soma de horas extraordinárias em que se tornaram os nossos dias, é ele, o dia: 24horas e nem mais um minuto. Ora, tudo aquilo de que precisávamos era desse minuto, dessa hora a mais, vá lá, se o dia se deixasse ficar por mais um dia, seria precisamente aí que iríamos tocar o livro, cheirar o livro, saborear o livro, fruir o livro, adormecer com o livro e, no dia seguinte, pensar que, logo à noite, iríamos para a cama com o livro. E, provavelmente, não seria assim. De facto, por que razão os ladrões que vertem os nossos dias em alguidares de inúteis vacuidades, não continuariam a deitar mão ao resto dos nossos dias? …… Enfim, divagações, nada mais do que divagações. Para pessoas como eu, que já se habituaram a não ver luzes ao fundo dos túneis - pese embora haver gente que diz que sente-que-vê luzes ao fundo dos túneis, sente-que-ouve a harmonia das esferas celestes, fora uns calores pelo corpo acima – palpita-me que nunca houve túneis, muito menos luzes. É claro que esta minha incapacidade de ver o que tantos outros sentem-que-vêem, tem a ver com aquela frase de Sófocles, segundo a qual, «o homem nada sabe sem queimar os pés no fogo ardente». No caso em análise, será só substituir pés e fogo, por cabeça e parede. De facto, e ao fim de andar tantos anos a correr para a luz que me diziam estar lá, ao fundo do túnel, tenho de reconhecer que, ou me enganei nas coordenadas ou aquilo sempre foi parede, nada mais do que parede.

2/ Perguntar-me-ão, mas o que é que isto tem a ver com o livro da Sandra? Tem, tem: é o negrume. Hoje, é o dia em que o livro da Sandra é dado à estampa, isto é, é o primeiro dia de “Negrume”. Mas eu, que já o li vi, logo ali, um livro crescido, feito de dias intensamente vividos, de amores maduros, de dores sofridas, enfim, um livro cuja origem é mais funda que a superfície das águas chilras, a tona das águas mornas do lugar-comum, da emoção formatada, do coraçãozinho despedaçado. Perguntar à Sandra onde foi buscar a inspiração ou, em alternativa, fazer a anatomia ou autópsia dos seus estados de alma no momento do poema, é tão sem jeito como são sempre sem jeito as questões que nada têm a questionar, mas que se comprazem imenso com a irrelevante tarefa de amassar vento. Para acabar com essas inquirições a que o próprio inquirido não sabe responder, logo a páginas tantas da “Odisseia”, concretamente, no livro XXII, passagem 347-349, o poeta homérico, remata da seguinte maneira: «um deus me pôs no espírito toda a espécie de melodias. Eu saberei cantar para ti como um deus». Mas porque sempre houve perguntadores impenitentes, o poeta grego abortava o diálogo logo ali, nos seguintes termos: “nada mais tenho a acrescentar; perguntem aos deuses; enquanto poeta, por eles sou possuído, mantike entheus”.

3/ “Negrume” vai-se confrontar com concorrentes de peso, bem mais vendáveis, com mais procura e saída, com mercado: o livro do mexerico, do voyeurismo compulsivo, do diz-que-diz, fora o ‘Guia para a Felicidade Feliz em 10 lições’ e, claro, o ‘Manual do sucesso garantido para gente ousada’. Mas mesmo se um dia, ao passar numa livraria, a Sandra vir uma fila interminável para o ‘Guia da Felicidade Feliz’, enquanto o “Negrume” está às moscas, lembre-se de Montaigne, e passo a parafrasear: «Quando perguntaram ao poeta por que razão persistia tanto numa arte que não seria acessível à maioria das pessoas, ele respondeu: bastam-me poucas; basta-me uma; basta-me nenhuma» (apud Alphonse Daudet, “Memórias do meu moinho”, Porto, Civilização, 1979, p. 142)

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