sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os caracóis de CaetanO


Uma solidão boca de cão
que morde até ao tutano,
atravessa o osso.
O osso do cotovelo.
O osso do coração.

Uma solidão samba canção.
Caetano a cantar Roberto.
O bar aberto,
e a tristeza chegando,
escondida,
debaixo dos caracóis dos seus cabelos.

Tu no exílio,
fechado à chuva.
Chove from nine to five,
or untill tea time!
O mundo pontual.
Ponto.
Ordenado,
urbano,
envidraçado.
Ponto.
Engraxado,
engravatado,
penteado.
Ponto.
Mesmo se um punk!
Ponto.
O mundo cinzento.
Ponto.
Falta-te o verde
e o amarelo!
Tu desigual,
culpa de um tal,
Pedro Álvares Cabral.

Tu numa ilha.
Tu uma ervilha,
uma lentilha.
Sem solução,
mais uma canção,
espantas o mal,
salva-te o sonho,
um outro Brasil,
o teu carnaval!

Tu a fugir da tua solidão.
Talvez Sevilha!
Sidra e tortilha.
Depois Paris.
Tomar a bastilha.
O gáudio da multidão!

A tua alegria breve,
leve como um balão,
e a solidão maior,
pesada, penosa,
quase dengosa,
feita de saudades gordas
das pedras do chão da Baía,
pedras primeiras
da tua poesia.

Raquel Serejo Martins


Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos, foi composta em 1971 por Roberto Carlos e Erasmo Carlos e dedicada a Caetano Veloso, no exílio em Londres desde 1969, deportado pela Ditadura Militar.


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