quinta-feira, 24 de outubro de 2013

É do borogodó: os risadinhas

Terminei minha oficina com um tempo estratégico de folga. Apanhei o livro na bolsa e sentei no chão com as crianças para leitura dos primeiros capítulos.
- Ah, você vai ler?

Alguém perguntou ou reclamou, não sei dizer ao certo, o que sei dizer é que eu retruquei com nova pergunta para saber quantos deles leem todos os dias e chateada escutei que somente uma das crianças tinha o “estranho” hábito.
- E o que vocês fazem a noite, quando estão em casa?

Insisti um pouco, eu sei, e nem deveria porque a resposta foi “novela, novela, novela e mais novela”. Quase me desesperei porque uma vozinha no grupo disse que vê novela para relaxar e que leitura é como “fazer lição”.
Morri por alguns instantes, mas felizmente ressuscitei no terceiro segundo.

- Certo, eu vou começar a ler “Os Risadinhas” para vocês. Não vamos terminar hoje porque temos pouco tempo e o livro é longo, mas continuamos um pouquinho a cada novo encontro.

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Um capítulo com quadro de aviso no meio e uma explicação esdrúxula sobre biscoito, cookies e curativos. O tom da voz acompanha a narrativa um tanto quanto inesperada, mas sempre muito investigativa.
Tenho para mim que os adultos deveriam levar muito a sério os livros escritos sob o rótulo “literatura para infância”. Mas isso é outra coisa e eu devo agora voltar ao texto original, por favor, desculpem a distração.

Pois bem, o segundo capítulo do livro, ou melhor, “O Retorno ao Capítulo Um”, já aponta qual o rumo da história: tudo é muito mais complexo do que sonha sua óbvia filosofia cotidiana.
“Os Risadinhas” são seres que cuidam das crianças e eles existem no mundo desde que o primeiro homem das cavernas grunhiu de forma irresponsável para a primeira criança das cavernas, porque “Os Risadinhas” detestam injustiças cometidas contra qualquer tipo de criança e por isso inventaram “o tratamento”.

Coisa confusa? Se você acha isso confuso, melhor ligar a televisão e ver qualquer tipo de programa de rima chulé com pé e para por aí.
O “tratamento” aplicado pelos “Risadinhas” é cocô. Nos dias atuais, cocô de cachorro, mas naquele tempo das cavernas, por falta de cachorro, a coisa era bem maior…
Sim, quando um adulto comete uma injustiça contra uma criança, como deixá-la sem jantar por um motivo irrelevante, o “tratamento” é aplicado.

Eu garanto aos senhores e às senhoras, inclusive perguntei isso aos meus filhos, é muito raro que me aconteça o “tratamento”. Minha filha mais nova lembrou de apenas um episódio em que eu meti o tênis no cocô de cachorro… Deve ter sido depois de tê-la colocado de castigo por ter cortado os próprios cabelos (como se o visual dela já não fosse o suficiente).

Em compensação, meu marido vive pisoteando cocôs. Parece incrível, mas é. E os meus filhos me disseram que isso acontece porque ele tem muito (muito, muito) menos paciência com eles do que eu.
Voltando ao começo e largando de lado a questão da paciência X cocô de cachorro, lá nos primeiros parágrafos quando as crianças me disseram que leitura é como “fazer lição” e que novela é que é bom para se divertir, devo dizer que “Os Risadinhas” foram tão bem compreendidos que foi absolutamente impossível encerrar a oficina no horário combinado.
O ponteiro do relógio acusou, mas as crianças me pediram um último capítulo e eu, que detesto injustiças, avancei uns minutinhos para benefício da leitura (que não é lição).

Terminamos nossa tarde assim:
- Penélope, ler é muito divertido, pena que ninguém lê comigo na minha casa desse jeito assim que você faz com os olhos e com a voz.
Para dizer a verdade não fiz nada de especial com os olhos e com a voz. O livro é que é bom mesmo.
Em tempo, “Os Risadinhas”, de Roddy Doyle e com desenhos de Brian Ajhar, Editora Estação Liberdade, de São Paulo, obra que veio parar na minha casa depois de indicação supimpa da amiga Tati Van der Moes e eu comprei no sebo porque livro felizmente não gasta e nem acaba a pilha.

Penélope Martins

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