quinta-feira, 17 de outubro de 2013

É do borogodó: doce de abóbora

Já não acreditava mais em amor, nem queria saber dessas donas melosas com trocas de carícias e promessas jamais cumpridas. Queria encher o copo todo fim de tarde e não ter para quem dar satisfação; guardava uma grana para queimar em gasolina com sua moto e outro tanto para se beneficiar das paixões das moças da casa da Dona Zu. Até que um dia, naquele mesmo bar de esquina, viu entrar Maria do Perpétuo Socorro, uma morena com sinuosas curvas e uma leve brisa de abril no sorriso. Até mesmo as cadeiras do bar ofereciam passagem para Socorro e os garçons pousavam a bandeja para não deixar copos ao léu.
Era um avião de brasilidade aquela Maria, movimento preciso de coxas a embalar os sonhos de qualquer homem. Maria do Perpétuo Socorro sacudiu a cabeça de Oscar naquele dia e botou tudo a perder, a desilusão do amor, os trocados perdidos em quilometragem, todas as moças que o esperavam aflitas na boate. Oscar se rendeu de pronto e já era dela.
Deixou cair sua bolsa ao chão, abaixou o corpo com competência de ginasta, sem dobrar joelhos nem nada, deixando as pernas de fora no fino traço da combinação. Uma displicência elegante desfilava no corpo de Socorro. Oscar palpitou desconcertado. Zé Bolacha gritou do caixa:
“Oh Socorrinho, nem vi você chegar.”
Maria do Perpétuo Socorro e seu corpo de Baía de Guanabara alçaram ao balcão, a bolsa na cadeirinha giratória, um voo debruçado selando um beijo na boca do dono do boteco, sujeito pra lá de esquisito, com sotaque acaipirado de paulista e um carão espalhado que lhe rendia o apelido de Zé Bolacha.
“O quê? Esse fenômeno da natureza tá de caso com Zé Bolacha?” Alardeava o pensamento de Oscar. “Mas que se dane!” A fúria fez o rosto de Oscar corar com violência.
“Ô cumpadi, dá aqui uma cachaça!”
“Venha cá, meu amigo Oscar, para conhecer minha noiva, Socorrinho.”
Era só o que faltava para desilusão maior e amargor do velho Oscar, aproximar-se do balcão para brindar o amor dos pombinhos. Socorro naquele decote pronunciado que engolia os olhos de Oscar sem dó nem culpa. Os seios fartos subiam e desciam no respirar doce de fruta madura. A pele acobreada, o pequeno escapulário no vale entre os dois montes perfeitos.
“A senhora é católica?”, deslizou Oscar sua pergunta tentando justificar o interesse no decote da morena.
“Muito, rezo o terço todos os dias ajoelhada aos pés da cama.” Fazendo o sinal da cruz, respondeu a moça ao famigerado Oscar.
“Uma mulher sem concorrência, amigo Oscar, minha Socorrinho é uma dádiva, um presente de Nosso Senhor Jesus Cristo”; Zé Bolacha embalou no sinal cristão ganhando a simpatia da noiva, mas o bigode de suor denunciava a origem de sua crença. Socorrinho era a igreja na qual ele depositaria suas orações e seus préstimos, e estava cristalina, feito água benta, que a reza ao pé do altar conjugal de olho nos quadris da morena, não seria nem de longe um problema para ele.
“O Senhor é cristão?” – Maria do Socorro lambuzou Oscar com olhos inteiros jabuticaba, enquanto tocava o braço dele. Oscar estremeceu, pensou em armar uma mentira e até começar trabalhos voluntários na igreja daquela santinha, mas respondeu com gana de arrebatar a menina na curiosidade:
“Tenho a melhor formação pastoral, minha jovem, rezo as orações mais poderosas, e exorcizo os piores acabrunhados demônios que já se teve notícia existir sobre a face da terra, e isso somente usando a força do meu caráter. Basta crer.”
Zé Bolacha, um homem que sempre foi mais dado ao trabalho do que aos prazeres da própria carne, perguntou com espanto sobre a declaração de Oscar supondo que o amigo poderia ser homem capaz de abarcar a ambiguidade de santo pecador. “Mas e as moças de Dona Zu, as noitadas, as doses seguidas, são por causa de quê?” Oscar, com ar devocional para fiel convencimento de sua vítima, disse ao Bolacha: “Mas é justamente esse meu trabalho, amigo, tirar o pecado dos corpos das moças e ensinar os melhores mandamentos. No mais, não é o que entra pela boca que mata, você conhece o versículo, não?”
Socorro desandou três sinais da cruz beijando as mãos de Oscar, depois já convidou o salafrário:
“Este homem é um santo, meu bem, sinto mesmo ao redor dele as trombetas dos anjos. Vou levá-lo agora em casa para presenteá-lo com minhas compotas de doce de abóbora.”
“Mas além de dedicada cristã a moça é fina compoteira? Que dotes esses, Bolacha! Não acredito que seja possível tal façanha nos dias atuais.”
“Pois você está duvidando da qualidade de doceira de Socorrinho? Tem que levar ele agorinha mesmo, minha linda, para provar das riquíssimas compotas, distintas até na embalagem.”
“Sem contar que apuro tudo muito bem apurado, mexendo com toda dedicação.” Afirmou Socorro, imitando o gesto da colher de pau entre seus dedos.
Os dois seguiram rumo à casa da moça enquanto Zé Bolacha continuava o trabalho no bar, longe de fechar as portas. Já na esquina, Socorrinho apanhou a mão de Oscar e disse:
“Tu não me enganas…”
Penélope Martins

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